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na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Música : Autores... : António Variações

António Variações (1944)

Um cantor popular

António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu a 3 de Dezembro de 1944, na aldeia de Fiscal, situada no concelho de Amares (Braga), e era o quinto de no total dez filhos de Deolinda de Jesus e Jaime Ribeiro. Pouco antes de fazer 11 anos deixou a sua terra natal, indo para Lisboa, onde trabalhou num escritório. Cumpriu o serviço militar em Angola, e depois passou algum tempo no estrangeiro: primeiro em Londres, mais tarde em Amesterdão, onde aprendeu a sua verdadeira profissão: barbeiro. Por fim, dedicou-se nos tempos livres àquilo que dizia ser a sua "maior necessidade": cantar.

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Uma imagem diferente

Foi em 1981 que, no programa televisivo da RTP Passeio dos Alegres, apresentado por Júlio Isidro, apareceu no então jovem palco musical do chamado Novo Rock Português, uma figura que havia de contribuir apenas três curtos anos para o mesmo, mas que deixaria uma marca musical e estética duradoura na cultura pop nacional. António Variações trazia já nessa primeira aparição um novo visual, que oscilava entre a provocação (a roupa, o estilo de dança) e o tradicional (a barba, a voz). Cantava (ou, melhor dito: berrava) os versos "...toma o comprimido, que isso passa!", enquanto lançava smarties para o público. Essa actuação, que fazia parte do repertório do Trumps, uma discoteca lisboeta onde se combinava teatro com música rock ao vivo, encorajou Variações a realmente "experimentar-se" como cantor e autor.

Com efeito, o cantor já tinha nas mãos um contrato assinado com a editora lisboeta Valentim de Carvalho (datado de 1978), sem que chegasse a editar qualquer trabalho discográfico, embora tivesse gravado em estúdio algum material folclórico ou tradicional, que permanece inédito até hoje. É óbvio que tanto o seu visual como o seu estilo vocal invulgar não tenham contribuido para que a editora tivesse tomado uma decisão clara em colocá-lo num mercado musical limitadíssimo.

Foi com a ajuda do seu irmão advogado que Variações conseguiu avançar contra a editora, para que essa cumprisse a edição dos trabalhos discográficos, tal como estava estipulado no contrato. Desde a primeira actuação que António estava acompanhado pelo grupo "Variações", designação que viria a tornar-se o seu apelido artístico na curta carreira a solo que estava em preparação.

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Uma compromisso inédito

Logo no primeiro single, António Variações dá os dois primeiros passos significativos para a sua carreira pública. O lado A contém uma versão corajosa de "Povo que lavas no Rio", da autoria de Pedro Homem de Mello e Joaquim Campos, e imortalizado pela voz de Amália Rodrigues. Na altura era inpensável fazer uma versão desse tema que estivesse situada além do Fado, e a ousadia é maior ainda pelo facto de se tratar de uma estreia. Porém, Variações revela com esse primeiro passo uma das suas incontestáveis referências musicais: o Fado, ou, melhor dito, Amália. Ao mesmo tempo, o arranjo musical da versão sobre guitarras em barragem define o outro extremo do projecto musical de Variações: o moderno, a vanguarda, o diferente. O lado B deste primeiro máxi-single confirma esse compromisso inédito e, ao mesmo tempo, a primeira amostra do que iriam ser os temas originais de António Variações ao longo dos dois anos seguintes: com o original "Estou Além" o cantor coloca a primeira peça do puzzle de seu autoretrato. Situava-se musicalmente "entre a Sé de Braga e Nova Iorque", como o próprio cantor afirmava, procurando lançar-se assim no mercado musical do Portugal pós-revolucionário.

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Anjo da Guarda

O primeiro álbum "Anjo da Guarda" (1983) contém dez faixas, todas da autoria do cantor. Variações não sabia ler notas musicais nem tocava nenhum instrumento, e até, confiando no que dizem os músicos com quem esteve em estúdio e em palco, nas gravações por vezes perdia-se no ritmo e na afinação, por dar-se tanto ao canto. Para compensar essas inexperiências, a técnica para fazer da "composição" uma gravação, através de uma equipa musicalmente capaz, era a seguinte: Variações trazia num gravador pequeno as suas melodias cantadas e acompanhadas por um ritmo, que fazia através de bater com os nós dos dedos na mesa. Eram os músicos de estúdio que, a partir dessa "proto-composição" e em cooperação com o autor, realizavam um arranjo musical adequado. No álbum de 1983, esses músicos recrutavam-se dos GNR, sendo que as gravações, por vários motivos inoportunos, se arrastaram por quase um ano inteiro. A produção musical foi de Toli César Machado, Vitor Rua e, numa segunda fase, de José Moz Carrapa.

Musicalmente este álbum é fruto de experi\encias que resultam parcialmente da quase-incompatibilidade entre a visão musical aparentemente ingénua que o cantor tinha em mente, e, agora do ponto de vista dos músicos, a melhor maneira de a realizar nos arranjos. Mas, apesar disso, a crítica recebe bem esse álbum que enriquece a inovação da música moderna da altura, protagonizada especialmente pelos Heróis do Mar, os GNR e Né Ladeiras. Ao mesmo tempo que o cantor parecia oferecer à música popular e tradicional um novo rumo, o público distinguia claramente neste primeiro LP uma tendência marcante do pop/rock que vinha de fora. Deste primeiro álbum fica como marca a originalidade, não esquecendo a convicção dos músicos que nele contribuiram, que acabaram por dar razão ao cantor, que, apesar da óbvia inexperiência, sabia muito bem o que queria ser e fazer como artista.

Destacam-se claramente os temas que definem a autoria de Variações, oscilando entre o saber popular, a superstição, o autoretrato de quem é diferente e o fascínio pela rainha do Fado, Amália, presente na capa através de um busto que simboliza a cantora. Além do primeiro original, que o cantor já tinha editado no primeiro single, ficaram na memória dos portugueses temas como "...o Corpo é que paga", "Sempre Ausente", "É p'ra Amanhã", "Linha-Vida" e "Voz-Amália-de-nós". O cantor dedicou o álbum ao seu ídolo, com as seguintes palavras: "à Amália, que sempre me deu e fez sentir a importância duma verdadeira identidade."

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Dar & Receber

Depois da promoção e divulgação do primeiro álbum, aparecendo na televisão e actuando ao vivo por todo o país, o sucesso do primeiro LP garante-lhe a produção de um segundo, desta vez sob a produção e direcção músical dos dois "heróis do mar" Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade. Este trabalho pode ser considerado como a consolidação do acima referido compromisso entre os extremos, tanto no que diz respeito às melodias e às letras do autor, como na produção mais elaborada e efectiva, o que se revela pelo facto de o álbum "Dar & Receber" (1984) ter sido gravado em apenas três semanas. Aparentemente, os músicos dos Heróis do Mar – juntamente com o excelente guitarrista caboverdiano Paulino Vieira e, em participações especiais, a acordeonista Eugénia Lima e Jorge Fontes na guitarra portuguesa –, entenderam precisamente a visão musical que o cantor tinha. Ironicamente, o débil estado de saúde de Variações, na altura em que o trabalho foi lançado no mercado, a consequente morte em Junho de 1984 e a hesitação da editora em seguir com a promoção do lançamento acabaram por não divulgar apropriadamente uma obra que teve, nos seus primeiros momentos de rádio, uma recepção entusiástica, à qual se alinhou também a crítica. Mais uma vez, e desta vez com apenas uma única excepção na letra, Variações assina a autoria de todos os temas.

As nove faixas de "Dar & Receber" (e, uma décima editada apenas em 2000, na reedição remasterizada) deixam imaginar aquilo que teria sido o caminho musical de um Variações já mais integrado no mercado musical dos anos 80. Sem qualquer dúvida, e totalmente apoiado pelos músicos que trabalharam no álbum, "Dar & Receber", é um marco musical da década e não só, como mostrou a recepção dos temas nos anos que se seguiram à morte prematura aos 39 anos.

Destacam-se as faixas "Perdi a Memória", "Canção" (tema composto pelo cantor sobre um poema de Fernando Pessoa), "Dar e Receber", "Olhei pra Trás", "Deolinda de Jesus" (dedicado à sua mãe) e, finalmente, um tema que encontrará um sucesso tardio, mas mútliplo: "Canção de Engate". Quanto à dedicatória, Variações lembra os seus pais e os músicos que tornaram possível o disco. Além disso, dedica-o "a todos os vigaristas, se acharem que estão certos", fechando com um enigmático "A Fernando Pessoa que". A última frase ganha algum mistério se tivermos em conta que Variações morre poucas semanas depois, no dia 13 de Junho, no dia em que Pessoa teria feito 95 anos.

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A recepção póstuma

António Variações não foi o primeiro e não será o último artista que, por ter falecido, esteve ausente no apogeu de seu próprio sucesso. Mas neste caso não se trata apenas do fascínio pela obra dum óbito, já que nesse caso o maior sucesso teria irrompido logo após a sua morte, no dia de Santo António do ano de 1984. Na verdade, a polémica da sua morte e sua fama de ser homossexual tiveram mais recepção no ano que ele morreu do que o excelente álbum derradeiro que estava à venda. Quanto à morte, e graças ao segredo profissional dos médicos que o trataram nas suas últimas semanas de vida, o único facto clinicamente confirmado é que faleceu em sequência de graves problemas respiratórios, colocando como causa da morte uma broncopulmonia bilateral. Poderá haver vários indícios que Variações era seropositivo; porém, enquanto a sua família o nega, a sua manager diz ter recebido a confirmação através de análises que foram feitas nos Estados Unidos. Em 1984 a sida era, além de doença letal recém-aparecida, um estigma social e não houve poucos que diziam "...esse via-se logo que tinha essa doença". Foi esse o principal factor que adiou uma recepção digna do seu trabalho. Refira-se. Todavia, que, ao longo de muitos anos, diversos artistas e grupos foram gravando versões de temas do cantor.

A primeira fez bastante sucesso e foi produzida também por Carlos Maria Trindade, em 1987. Em "Canção de Engate", os Delfins partiram da melancolia pesada, que caracteriza a versão original de 1984, fazendo uma versão mais acelerada com uma marca dominante de funk, pelo que o tema conquistou rapidamente as pistas de dança. Dois anos depois é a cantora Lena D´Água, amiga pessoal de Variações, que contribui significativamente ao reunir no álbum "Tu Aqui" (1989) nove canções inéditas do cantor, incluindo uma versão de "Estou Além". Dez anos depois da sua morte a editora organiza um álbum de tributo intitulado "Variações – As canções de António", reunindo dez interpretações livres. Participaram nesta homenagem os artistas e grupos Sérgio Godinho, Madredeus, Sitiados, Resistência, Delfins, Santos e Pecadores, Isabel Silvestre, Mão Morta, Três Tristes Tigres e Ritual Tejo. No ano seguinte as Amarguinhas incluiram no seu álbum de estreia uma versão de "Estou Além". O projecto MDA edita, também na sua estreia, versões de "Estou Além" e de "Dar & Receber".

Em 1997 chegou a altura da restauração digital do material original, já que as reedições em formato CD dos anos 1988/89 continham apenas o material análogo, sem qualquer tratamento ou alteração. O projecto da editora ao longo dos três anos que se seguiam foi editar a colectânea "O melhor de" (1997), seguida das reedições restauradas dos dois álbuns em 1999 e 2000, respectivamente. Para acompanhar a colectânea, foi também editada em CD-single "...o Corpo é que paga", em 1997, obtendo um sucesso que o cantor nunca conheceu em vida. Quando à reedição do segundo álbum, "Dar & Receber", a editora pôde oferecer um tema inédito que, embora gravado nas sessões de 1984, não fora incluido no LP respectivo (nem no CD de 1989), e que acrescenta o puzzle do autoretrato ("Minha Cara sem Fronteiras").

Com excepção dos temas "Povo que lavas no Rio" e "Estou Além", o material não só foi remasterizado (digitalização das gravações análogas), mas também remisturado (recomposição digital de todas as bobines multipistas disponíveis). O efeito desse tratamento técnico é, em geral e sem dúvida, uma qualidade de som superior e, por vezes, mais adequada à norma sonora da década de 90. É assim que hoje temos uma sonoridade muito melhor que o faltoso original de 1983/84, por exemplo, em "...que Pena seres Vigarista". Quanto à peculiariedade sonora dos anos 1983/84, esta pode ser considerada parcialmente perdida na maioria dos temas, porque várias pistas foram bastante trabalhadas e alteradas (principalmente as vocais, por parte sendo até trocadas por gravações alternativas, embora originais). Os técnicos londrinos tomariam essas decisões, porque à luz do pop dos anos 1990 a sonoridade original teria algo de arcaico e de imperfeito. A alteração que mais censura o original é o corte de grande parte das pistas de sintetizador e de bateria em "Olhei pra Trás", originando a falta de importantes elementos que compõem a harmonia melódica e o ritmo da balada.

As mais recentes versões de "Canção de Engate" e de "Estou Além" foram protagonizadas pelos alunos da primeira edição da Operação Triunfo (RTP 2003), Filipe Santos e Rosete. É assim que, vinte anos depois de sua morte, António Variações permanece na memória musical dos portugueses como uma imagem que por vezes provocava reações adversas, mas nunca a indiferença.

Autoria: Alexandre Martins

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Discografia original

1982
Single "Povo Que Lavas no Rio/Estou Além"
1983
Álbum "Anjo da Guarda"
1984
Álbum "Dar & Receber"
Reedições em CD
1988
Álbum (CD) "Anjo da Guarda"
1989
Álbum (CD) "Dar & Receber"
Remasterizações em CD
1997
Álbum "O melhor de António Variações"
Single "Canção de Engate"
1998
Álbum "Anjo da Guarda"
2000
Álbum "Dar & Receber"
inclui três versões (duas remisturas) da canção inédita "Minha Cara sem Fronteiras"

Actualizado em 07.02.2010 fvs