Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Paulo Rocha

Paulo Rocha (1935)

Paulo Rocha provém duma geração de cineastas com formação universitária (no seu caso Direito) e que foi cativada para o cinema em grande parte através da acção dos cineclubes. Com diploma em realização, foi assistente de Jean Renoir em 1962.

Um ano depois realiza um filme-charneira na cinematografia portuguesa: Os Verdes Anos. Com produção de António da Cunha Teles, a primeira longa-metragem de Paulo Rocha marca para muitos o início do chamado "cinema novo". A partir duma curta notícia de jornal (um jovem da província matara uma criada em Lisboa), Paulo Rocha e o escritor Nuno de Bragança construíram um argumento aparentemente simples sobre uma juventude algo inquieta e rebelde, sem saídas numa cidade, Lisboa, com tanto de fascinante como de sufocante. O filme constituiu também o ponto de partida para apresentação de filmes de novos realizadores em festivais internacionais de cinema (Os Verdes Anos obtém mesmo distinções em Locarno, Acapulco e Valladolid).

Em 1966, novamente com produção de António da Cunha Teles, Paulo Rocha realiza Mudar de Vida, um dos raros filmes a abordar de forma realista (embora não muito profunda, já que todos os filmes eram visionados pela Comissão de Censura) a problemática da Guerra Colonial. Rodado no Furadouro, nas proximidades de Ovar, o filme centra-se nas dicotomias terra e mar, tradição e progresso. A nível musical, e a propósito de tradição e progresso, há a salientar, quer neste filme quer em Os Verdes Anos, o som da guitarra de Carlos Paredes, um instrumento tradicional a que o músico conferiu um toque de modernidade inconfundível.

Em 1971, sob produção do Centro Português de Cinema (CPC), realiza o documentário Pousada das Chagas, tendo como cenário o Museu de Óbidos. Dois anos depois torna-se presidente do CPC, cargo que ocupará até 1975, data em que assume as funções de adido cultural da Embaixada de Portugal no Japão, que desempenhará até 1983. Deixa-se fascinar pelo cinema nipónico e também pela figura e obra de Wenceslau de Moraes, escritor português que em finais do séc. XIX partiu para o Oriente, vindo a morrer no Japão. Moraes é o tema de A Ilha dos Amores (1982) e A Ilha de Moraes (1983), trabalhos que se complementam e dão uma visão bastante profunda da personalidade do escritor.

Parte do que pode definir-se como o seu "ciclo do Japão" é ainda a co-produção luso-francesa O Desejado — As Montanhas da Lua (1917), a adaptação à actualidade portuguesa dum clássico da literatura japonesa do séc. X.

Em 1988 realiza a média-metragem Máscara de Aço Contra Abismo Azul para a Rádio Televisão Portuguesa. Partindo dos títulos de dois quadros de Amadeo de Souza Cardoso ("Máscara de Aço" e "Abismo Azul"), o filme centra-se numa fase da obra do pintor mais voltada para o espectáculo, optando o realizador, através duma montagem de quadros, fotografias e recortes de jornal, por uma abordagem estética próxima da do teatro de revista.

Em 1992 Paulo Rocha presta homenagem a Manoel de Oliveira em Oliveira, o Arquitecto, uma viagem por lugares a que o veterano realizador esteve ligado, acompanhada de testemunhos de familiares e colaboradores. O filme integrou uma série de televisão francesa denominada de "Cinema do Nosso Tempo".

Seguem-se mais duas obras de temática nipónica: O Senhor Wenceslau Brás em Tokushima (1993), uma peça de teatro filmada, e Imamura, o Livre Pensador (1995).

Em 1998 regista em vídeo um espectáculo teatral do grupo Maizum, Camões — Tanta Guerra, Tanto Engano, regressando à ficção no mesmo ano com uma co-produção luso-franco-brasileira, O Rio do Ouro, uma história algo mística ambientada no Vale do Douro nos anos 50 com que o realizador pretendeu homenagear o cineasta japonês Kenji Mizoguchi.

Data do ano 2000 o que será talvez o mais desconcertante filme da sua carreira, uma farsa política (e musical) localizada numa Lisboa do futuro, protagonizada por vários "travestis": A Raiz do Coração.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs