Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Manoel de Oliveira

Manoel de Oliveira (1908)

Manoel de Oliveira foi no âmbito do desporto, nomeadamente do atletismo e do automobilismo, que se tornou primeiro conhecido. No entanto, nasceu também cedo o seu interesse pelo cinema, tendo decidido frequentar, sob o pseudónimo de Rudy Oliver, a escola de actores (para cinema) que o realizador italiano Rino Lupo abriu na cidade do Porto.

É através de Rino Lupo que Manoel de Oliveira entra mais directamente no mundo do cinema, ao interpretar um dos papéis de Fátima Milagrosa (1928), um filme da fase mais convencional de Lupo, sobre um família da burguesia de Lisboa.

Entre 1929 e 1931 roda uma curta-metragem sobre o trabalho quotidiano na margem direita do rio Douro, no Porto. Douro, Faina Fluvial suscita o interesse do crítico e cineasta António Lopes Ribeiro, que o propõe para ser exibido no V Congresso Internacional da crítica, realizado em Lisboa, em Setembro de 1931. A reacção de parte dos presentes, que esperariam um documentário de teor paisagístico, é assaz negativa, contrastando, porém, com a de vários convidados internacionais, que se mostraram agradavelmente surpreendidos pela modernidade da realização. Só três anos depois o filme (já sonorizado e com música do prestigiado compositor Luís de Freitas Branco) viria a ser mostrado ao público numa sala de cinema, como complemento da longa-metragem Gado Bravo, de António Lopes Ribeiro.

Em 1932 realizou dois pequenos documentários, Estátuas de Lisboa (que estreou sem sua autorização, já que o considerava incompleto) e Hulha Branca, sobre a empresa hidro-eléctrica do rio Ave. Em 1933 é um dos intérpretes do primeiro filme sonoro totalmente rodado em Portugal, Canção de Lisboa, de Cotinelli Telmo.

Após alguns anos sem filmar regressa em 1938 com outros dois pequenos documentários: Miramar, Praia das Rosas e Em Portugal já se Fabricam Automóveis, sobre o modelo Edifor, que se procurou comercializar no Porto. Dois anos depois roda um documentário de maior duração sobre a vila de Famalicão, entre outros aspectos com incursões pela presença naquela área de Camilo Castelo Branco, escritor que, decorridas várias décadas, haveria de estar ligado à sua obra fílmica.

Depois de ter fundado uma empresa produtora de filmes, visando uma regularidade na criação cinematográfica, António Lopes Ribeiro deu a Manoel de Oliveira a oportunidade de rodar a sua primeira longa-metragem. Oliveira opta pela adaptação da obra "Meninos Milionários", de João Rodrigues de Freitas, a que dará o nome de Aniki-Bóbó, verso duma cantilena usada pelas crianças da zona ribeirinha do Porto quando brincavam aos polícias e ladrões. As crianças são, aliás, as protagonistas do filme "vivendo" problemas e situações dum universo adulto. O filme, estreado em 1942, não terá êxito comercial, numa época em que é a comédia interpretada por actores populares que colhe as preferências do público. Quando, mais tarde, o filme é exibido noutros países, há sectores da crítica que o apontam como percursor do neo-realismo. Ainda quanto ao acolhimento internacional de Aniki-Bóbó é curioso referir que em 1961, praticamente vinte anos depois da sua realização, recebeu o Diploma de Honra no II Encontro de Cinema para a Juventude, em Cannes.

Sem meios para continuar a sua actividade cinematográfica, Manoel de Oliveira só voltará a fazer-se notar em 1956, com o documentário O Pintor e a Cidade, que realiza após um estágio que decide fazer na Alemanha para tomar contacto com os requisitos técnicos necessários à filmagem a cores. A cidade do Porto e a obra do pintor António Cruz, por ela influenciado, são o tema do filme, que dará a Oliveira o primeiro duma extensa lista de prémios: a harpa de prata do festival de curtas-metragens de Cork (Irlanda).

Três anos depois, com patrocínio da Federação Nacional dos Industriais de moagem, realiza a média-metragem O Pão, sobre o que podia designar-se de ciclo da semente, com passagem pela fecundação, moagem e consumo do pão.

Regressa à longa-metragem em 1962, com um dos trabalhos mais originais do cinema português: O Acto da Primavera. Trata-se duma representação popular do Auto da Paixão, tendo por base um texto de Francisco Vaz de Guimarães, datada do séc. XVI. Rodado na zona de Chaves, em Trás-os-Montes, o filme teria consultoria do escritor José Régio e dele viria a ser feita uma versão francesa, supervisionada por António Lopes Ribeiro.

A Caça é uma curta-metragem sobre as dificuldades por que passam dois jovens quando vão caçar e um deles cai num pântano. Manoel de Oliveira realiza-a em 1964, o mesmo ano em que regressa a Trás-os Montes para dirigir o documentário Villa Verdinho — Uma Aldeia Transmontana, em que sobressai a música de José Afonso, nomeadamente a canção "Grândola, Vila Morena", que viria, dez anos depois, a ser uma das senhas radiodifundidas do Movimento dos Capitães.

Em 1965 dedica um curto documentário, As Pinturas do Meu Irmão Júlio, à obra do pintor Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão do escritor José Régio.

A obra de Manoel de Oliveira é uma referência para a crítica e para os cineastas do chamado "cinema novo", que em torno da sua figura elaborarão em 1967 um manifesto em que são expostas as pretensões de profissionais de cinema que pugnam por uma dignificação da sua actividade. A Fundação Gulbenkian acabará por passar a apoiar o cinema português, patrocinando, de certo modo, o Centro Português de Cinema (C.P.C.), uma cooperativa de cineastas que cria um plano de produção de filmes para os primeiros anos da década de 70. A primeira obra a ser produzida pelo C.P.C. será O Passado e o Presente (1971), a adaptação de uma peça de Vicente Sanches a que Manoel de Oliveira acentua o tom caricato, nomeadamente ao optar por uma linguagem artificial (desvinculada do português falado na época) e por uma direcção de actores visando a teatralidade. Anos depois Oliveira considerará, aliás, o cinema inexistente "de per si", já que mais não será do que um meio audio-visual de fixação do teatro.

Quando, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, vários realizadores alteram por completo os projectos que haviam pensado concretizar e filmam obras essencialmente políticas, Manoel de Oliveira roda Benilde ou a Virgem-Mãe (1974), de acordo com o que já tinha planificado. É o início duma trilogia de amores frustrados, no caso desta adaptação duma peça de José Régio devido a uma interferência sobrenatural. Reforçando o parentesco (e a dependência) cinema-teatro, o genérico consiste na deambulação da câmara pelos vários cenários em que decorrerá a acção.

Em 1978 estreia na Rádio Televisão Portuguesa uma série de seis episódios a partir do romance de Camilo Castelo Branco Amor de Perdição. Manoel de Oliveira segue escrupulosamente a obra literária e apresenta sequências com longos planos sem diálogo ou com frequentes intervenções dum narrador. Trata-se duma linguagem completamente diferente do que se via em televisão e as críticas não se fazem esperar. Poucas vozes se levantam para elogiar fosse o que fosse da série, não faltando mesmo comparações (desfavoráveis a Manoel de Oliveira) com a versão cinematográfica de António Lopes Ribeiro, feita em 1943. Quando a versão para cinema estreia, embora extensa e embora com longos planos onde parece que nada acontece, a crítica mostra-se em geral rendida e algum tempo depois a imprensa faz eco da excelente reacção à exibição do filme na França. Nasce o mito de que os filmes de Oliveira são inevitavelmente lentos, artificiais, "feitos para o estrangeiro" e não para Portugal, ideia em grande parte ainda hoje partilhada pela maioria do público português.

Com Francisca (1981) completa a trilogia dos amores frustrados e inicia-se uma frequente colaboração entre Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís, cujo romance "Fanny Owen" serviu de base a esta história, parcialmente verídica, do relacionamento entre os escritores José Augusto e Camilo Castelo Branco e a jovem Francisca.

Manoel de Oliveira começa a ser presença assídua no palmarés de festivais internacionais de cinema e vários dos seus filmes serão co-produções entre empresas portuguesas e estrangeiras. Um nome se manterá a nível da produção, seja qual for o sistema adoptado: Paulo Branco, um dos mais importantes produtores europeus de cinema, com base de distribuição na França.

Os documentários Lisboa Cultural (1983), em co-produção luso-italiana, Nice... A Propos de Jean Vigo (1983), produção francesa em que se intersectam excertos de A Propos de Nice (filme de 1929 de Jean Vigo) com imagens da cidade nos anos 80, e Simpósio Internacional de Escultura em Pedra — Porto 1985, para a Rádio Televisão Portuguesa, antecedem um dos seus trabalhos de maior fôlego. Le Soulier de Satin (1985), a partir da obra de Paul Claudel, tem cerca de sete horas de duração e nunca será exibido no circuito comercial português, mas recebe os maiores encómios da crítica internacional, particularmente francesa.

A obra de Oliveira consegue também, enfim, a regularidade que os seus admiradores desde há muito desejavam. O Meu Caso (1986) é uma invulgar (para alguns não totalmente conseguida) combinação duma obra de José Régio, outra de Samuel Beckett e passagens do Antigo Testamento, e de diferentes registos cinematográficos, do cinema mudo até à representação de tipo teatral.

Com concepção e quadros do seu irmão Manuel Casimiro, realiza o pequeno documentário A Propósito da Bandeira Nacional (1987).

Os Canibais (1988) é um filme-ópera, com base num conto dum escritor romântico português pouco conhecido: Álvaro Carvalhal. Desconhecida era também uma jovem actriz que se estreia neste filme e será presença quase constante nas produções que se seguem: Leonor Silveira.

Dois anos depois Manoel de Oliveira realiza um fresco sobre a história de Portugal, Non ou a Vã Glória de Mandar: um pouco antes de 25 de Abril de 1974, na África, alguns soldados conversam sobre momentos da história portuguesa, de Viriato ao desastre de Alcácer-Quibir.

A Divina Comédia (1991), localizado numa casa de alienados, combina textos de Dostoievski, José Régio, Nietzsche e da Bíblia e apresenta personagens que aliam a loucura à lucidez.

Em O Dia do Desespero (1992) Oliveira regressa à figura de Camilo Castelo Branco, partindo da sua correspondência epistolar para traçar os últimos anos da sua vida.

Um dos seus maiores êxitos internacionais será Vale Abraão (1994), com base num romance de Agustina Bessa-Luís aparentado com Madame Bovary.

A Caixa (1994) leva Manoel de Oliveira à cidade de Lisboa, pouco presente na sua obra. Entre a comédia e o burlesco, o filme situa-se no bairro da Mouraria e retira o título do "instrumento de trabalho" dum cego que pede esmola e assim sustenta a família.

Apesar de vários actores estrangeiros haverem integrado o elenco dos seus filmes, é com O Convento (1995) que se corporiza o desejo de algumas verdadeiras vedetas internacionais trabalharem com o decano dos realizadores em actividade. John Malkovitch desempenha o papel dum investigador americano que tenta encontrar na biblioteca do Convento da Arrábida as provas de que Shakespeare era um judeu espanhol; Catherine Deneuve é a mulher, que o acompanha.

Em 1996 realiza, em conjunto com o cineasta francês Jean Rouch, um documentário sobre a cidade do Porto, En une Poignée de Mains Amies. Data também desse ano Party, com Michel Piccoli e Irene Papas, passado nos Açores.

Com Viagem ao Princípio do Mundo (1997) Oliveira redescobre lugares da sua infância e juventude num filme marcadamente autobiográfico protagonizado por Marcello Mastroiani no papel dum realizador chamado Manoel (seria, acrescente-se, o último filme do famoso actor italiano).

Inquietude (1988) é um conjunto de três histórias (de Prista Monteiro, António Patrício e Agustina Bessa-Luís), aparentemente desconexas e surpreendentemente ligadas.

Regressa à literatura francesa com A Carta (1999), a partir de A Princesa de Clèves de Madame de La Fayette, que alguns definem como o primeiro romance da literatura francesa. Ao lado de Chiara Mastroiani surge o cantor português Pedro Abrunhosa, desempenhando uma personagem com o seu próprio nome, que vai invadindo o espaço sentimental de Madame de Clèves, tal como musicalmente penetra no espaço onde toca a pianista Maria João Pires (representando-se também a si mesma).

De volta à literatura portuguesa, Oliveira parte das cartas e dos sermões do Padre António Vieira para realizar Palavra e Utopia (2000).

Je Rentre à la Maison (2001) é o "mais francês" dos seus filmes, dado que foi rodado em Paris, em francês. A análise do processo de envelhecimento e do sentido de perda que inevitavelmente lhe está associado (de faculdades, de afectos) dão-lhe, porém, um carácter universal, particularmente também numa época em que a televisão ocupa um lugar cada vez mais destacado na sociedade. Michel Piccoli desempenha o papel dum prestigiado actor de teatro sujeito ao trabalho para televisão.

Setenta anos depois da primeira exibição Douro, Faina Fluvial, Oliveira regressa à cidade onde sempre viveu e filma a média-metragem Porto da Minha Infância, uma evocação da sua infância feita a partir de fotografias e gravuras da época.

O Princípio de Incerteza (2002) marca o reencontro com Agustina Bessa-Luís, cuja obra "Jóia de Família" descreve a progressiva decadência da burguesia do Vale do Douro.

Com uma actividade surpreendentemente intensa (aos 94 anos, por exemplo, estreia-se na realização dum "videoclip" para o tema "Momento" de Pedro Abrunhosa), Manoel de Oliveira é o único cineasta a ter principiado a sua carreira no período do cinema mudo e a manter-se activo no XXI. Visita ou Memórias e Confissões, rodado em 1982, será apresentado, por desejo expresso do realizador, apenas após a sua morte.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs