Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : João César Monteiro

João César Monteiro (1939-2003)

João César Monteiro iniciou-se no cinema em 1961 como assistente de produção de Perdigão Queiroga no fime O Milionário. Dois anos depois rumou a Londres com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para frequentar a London School of Film Technique. Regressado a Portugal realiza filmes publicitários e dedica-se à crítica cinematográfica.

Estreia-se como realizador em 1969 com o documentário Sophia de Mello Breyner Andresen (que só será exibido três anos depois), em que faz dá provas duma estética poética que combina na perfeição com o ambiente literário da obra da escritora.

Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970) é uma curta- metragem sobre jovens intelectuais na Lisboa do princípio da década, seguindo-se-lhe o primeiro filme de fundo: Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família (1973), um dos projectos emanados do Centro Português de Cinema, organismo criado por cineastas do chamado "cinema novo" e subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Nele se revelam já algumas das coordenadas da obra futura de João César Monteiro, nomeadamente um pendor literário algo surrealizante: o filme tem como base textos de autores tão díspares como Ésquilo, James Joyce, Francis Ponge e André Breton.

Um ano depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 realiza a longa-metragem Que Farei Eu com esta Espada?, que, embora eivada de referências à situação política então vivida, se distingue de filmes contemporâneos pela carga simbólica (surge mesmo Nosferatu, o vampiro de Murnau) de que faz rodear imagens de manifestações e de certa marginalidade lisboeta.

Com Veredas (1977) inicia uma fase de abordagem de lendas e contos da mitologia popular portuguesa, a que dará sequência numa série da Rádio Televisão Portuguesa, intitulada precisamente "Contos Tradicionais Portugueses" (1979), para a qual roda O Amor das Três Romãs, Os Dois Soldados e O Rico e o Pobre. Silvestre (1982) é ainda a adaptação dum conto tradicional, ambientado no séc. XV, e marca a estreia em cinema da que se viria a tornar uma das mais internacionais actrizes portuguesas: Maria de Medeiros.

O próprio João César Monteiro começa a ganhar alguma projecção internacional, o que se reflecte na presença dum elenco internacional (encabeçado por Laura Morante) no seu filme seguinte, À Flor do Mar (1986).

O maior destaque internacional de João César Monteiro surgirá com Recordações da Casa Amarela (1989), vencedor do Leão de Prata do Festival de Veneza, em que faz nascer no écran a figura de João de Deus, seu alter-ego, que marcará presença em futuros filmes. Não o retomará em O Último Mergulho (1991), que filma para a série "Os Quatro Elementos" da RTP, nem nas curtas-metragens O bestiário e Lettera Amorosa, ambas de 1995, mas fá-lo-á reaparecer em dois outros trabalhos de 1995: a curta-metragem Passeio com Johnny Guitar e A Comédia de Deus. O seu estilo vai-se tornando cada vez mais abstracto, com planos largos e frequentemente insólitos e um erotismo usado de forma provocadora.

São estas também as características de Le Bassin de John Wayne (1997) e As Bodas de Deus (1999), pelos quais perpassa uma crítica corrosiva ao modelo da sociedade ocidental, baseado na luta pelo poder e pelo dinheiro.

No ano 2000 filma o que será o seu filme mais polémico, Branca de Neve, que, aquando a estreia, reacenderá o debate sobre a atribuição de subsídios a obras cinematográficas que atraem poucos espectadores. No caso de Branca de Neve, a controvérsia era sobretudo motivado pelo facto de durante mais de metade do filme o écran estar a negro, ouvindo-se apenas as vozes de actores narrando a história, opção justificada pelo realizador pelo facto de as crianças a conhecerem essencialmente contada e não visualizada. João César Monteiro insurgia-se também contra a dependência dos espectadores portugueses de modelos narrativos convencionais, derivados duma estética televisiva que nada tinha a ver, na sua concepção, com a criatividade que devia exigir-se do cinema.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 08.03.2006 kc