Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : António de Macedo

António de Macedo (1931)

António de Macedo frequentou a Escola Superior de Belas-Artes, vindo a exercer as funções de arquitecto na Câmara Municipal de Lisboa. Como outros realizadores da sua geração, adquiriu grande parte da sua cultura cinematográfica no movimento cineclubista que, nos 50, procurou fomentar novos hábitos nos espectadores e exerceu uma posição crítica em relação ao panorama fílmico português, quando este se encontrava numa fase de nítida decadência.

Realiza os seus primeiros trabalhos no início dos anos 60: curtas-metragens e documentários encomendados como A Primeira Mensagem (1961), Ode Triunfal (1962), Nicotiana (1963), sobre o fabrico de cigarros, e 1X2 (1963).

A sua primeira longa-metragem, Domingo à Tarde (1965), é produzida por António da Cunha Telles e é a adaptação do romance homónimo de Fernando Namora. Não suscita a unanimidade entre a crítica (parte da qual esperaria um maior arrojo a nível da condução da narrativa, como sucedia com outras obras do chamado "cinema novo"), mas é um dos raros filmes da nova corrente a interessar o público.

Continua a actividade no âmbito do documentário, enveredando pontualmente pela divulgação de nomes da literatura portuguesa: Afonso Lopes Vieira (1966), Crónica do Espaço perdido (1966), Fernão Mendes Pinto (1966), Alta Velocidade (1967).

Em 1967, quando as Produções Cunha Telles estavam a passar por sérias dificuldades financeiras, António de Macedo assume o desejo de fazer um filme de puro entretenimento, dentro dum modelo convencional e tecnicamente apurado. Opta por uma história policial (o que foi sempre pouco explorado pelo cinema português e quase sempre falhado quando tentado) e organiza um elenco artístico e técnico, combinando nomes associados ao cinema tido como "decadente" e outros da nova geração. Apresentar, no papel duma detective, Florbela Queiroz, actriz de teatro de comédia e de revista, protagonista em cinema apenas de melodramas musicais, interpretando na banda sonora de Sete Balas para Selma canções com letra do poeta Alexandre O'Neil musicadas pelo Quinteto Académico (grupo popularizado por temas românticos) poderia ser visto como provocador ou até transgressor, mas para alguns cineastas e críticos da geração de Macedo foi uma quase ofensiva cedência ao cinema mais comercial. A reacção do público foi a indiferença, não tendo o filme feito resultados de bilheteira superiores aos de outras películas, mais intelectualizadas (e de maior credibilidade) do "cinema novo". As Produções Cunha Telles não evitaram a situação de falência.

António de Macedo prosseguiu a sua actividade na área do documentário, entre o convencional e o culturalmente interventivo: Albufeira (1968), Fado — Lisboa 68 (recentemente redescoberto por estações de televisão internacionais como material de apoio a um dos tipos de "world music"), A Ginástica na Prevenção dos Acidentes (1968), A Revelação (1969), Almada Negreiros, Vivo Hoje (1969), a que seria atribuído o Prémio Paz dos Reis para a melhor curta-metragem, que de Macedo recusaria receber, Cine-Riso nº 1 (1969), com produção dos Parodiantes de Lisboa, figuras míticas da rádio portuguesa, História Breve da Madeira Aglomerada (1970), Totobola — Relatório e Contas (1970).

As dúvidas que pudessem existir, após a "aventura policial" de Sete Balas para Selma, relativamente ao empenhamento de António de Macedo num cinema socialmente interveniente, deixariam de ter razão de ser com Nojo aos Cães (1970). Filme de carácter experimental, foi feito com a nítida convicção de jamais poderia ser exibido em tempos de censura. A reportagem (ficcional) duma manifestação de jovens que dirigem insultos aos técnicos que os filmam acaba por tornar-se um género de insulto aos espectadores, que tão passivamente assistem a um filme como se conformam com uma sociedade em cuja dinâmica não interferem. A censura não só consideraria Nojo aos Cães "perigoso e contrário aos interesses nacionais", como proibiria qualquer notícia que sobre ele pudesse surgir na comunicação social.

António de Macedo prossegue a actividade de documentarista com Cinco Temas para Refinaria e Quarteto (1971), sobre petróleo, Do Outro Lado do Rio — Almada 71, Inauguração da Doca Alfredo da Silva (1972), O Leite (1972), Lisboa — Jardim da Europa (1972). Será da sua autoria a longa-metragem comercialmente mais bem-sucedida das que foram produzidas pelo Centro Português de Cinema, cooperativa de cineastas apoiada pela Fundação Gulbenkian: A promessa (1973). Embora tendo por base uma obra teatral do dramaturgo Bernardo Santareno, o filme constitui o ponto de partida para a abordagem duma temática que se tornaria mais visível em futuras obras de Macedo: a relação entre o Homem e a religião.

Antes de enveredar pelo cinema politicamente mais interveniente que a Revolução de 25 de Abril de 1974 proporcionaria, dirige Cenas de caça no Baixo Alentejo (1973), A Criança e a Justiça (1973), sobre a delinquência e a evolução do Código Penal, Marconi — Via Satélite (1973), Um Milhão de Vóltios (1973), Arquitectura e Habitação (1974), A Arte Culinária (1974), A Profissão de Produtor de Cinema em Portugal (1974) e Vendedores Ambulantes (1974).

Funda a Cooperativa Cinequanon, participa no projecto colectivo As Armas e o Povo (1975), sobre o período entre 25 de Abril e 1 de Maio de 1974, e ainda em 1975 roda Candidinho, A Cooperativa Cesteira de Gonçalo, Hotel das Arribas — Um Ano de Auto-Gestão, Ocupação de Terras na Beira Baixa, A Penteadora, Peter Lilienthal filma em Setúbal, Teatro Português, Unhais da Serra — Tomada de Consciência Política numa Aldeia Beirã e Fátima Story, sobre as aparições de Fátima e a participação de milhares de peregrinos nas cerimónias de 13 de Maio e 13 de Outubro de 1975, em plena era revolucionária. A longa-metragem O Rico, O Camelo e o Reino ou o Princípio da Sabedoria (1975) entra no domínio do sobrenatural, mas passa algo despercebido por divergir dos padrões cinematográficos da época.

É em 1976, e na sequência de Fátima Story, que de Macedo roda a sua obra mais polémica: As Horas de Maria (1975). A história duma jovem cega internada num hospício à espera dum milagre de Nossa Senhora de Fátima aliada à presença de figuras bíblicas causou acesa controvérsia quando o filme se estreou em 1978, com cenas de indignação à porta do cinema onde era exibido. A própria controvérsia viria a favorecer a carreira comercial do filme.

Ainda em 1976 roda Os Encadernadores, Os Tipógrafos e O Outro Teatro — As Coisas Pertencem a Quem as Torna Melhores, um precioso documentário sobre o percurso dos grupos de teatro independente que, antes e depois de 25 de Abril de 1974, lutavam por um teatro de maior intervenção social.

Depois de Cooperativa de Ópera (1977), A Bicha das Sete Cabeças (1978), O Encontro (1978), Encontros Imediatos do Nono Grau (1979) e de dois trabalhos para televisão, Ano Internacional da Criança (1979) e Recuperação de Deficientes (1979), realiza O Príncipe com Orelhas de Burro (1979), apresentado primeiro como série de televisão, a partir duma obra de José Régio e, segundo de Macedo, com inspiração em António José da Silva, o Judeu.

Ainda para televisão roda as séries XX-XXI Ciência e Técnica, Hoje e Amanhã (1979/1980) e A Magia das Bonecas (1981), além dos documentários O Futuro do Mondego e Para uma Vida Melhor, numa Cidade Melhor (1982).

O sobrenatural (a entrada num castelo medieval numa noite de Natal, à meia-noite) está novamente presente em Os Abismos da Meia-Noite (1983), que, com um bom lançamento, alcança um êxito bastante razoável junto do público.

Homenageia o Instituto Superior Técnico com 50 Anos de um Complexo Escolar Universitário de Engenharia (1985). Os Emissários de Khalôm (1987) envereda um pouco mais pelo campo da ficção científica, abordando o esforço dum conjunto de cientistas tentando criar um processo que impeça a eclosão duma guerra nuclear.

Mantendo o seu trabalho regular em televisão, roda um documentário ficcionado sobre a organização duma exposição-homenagem a Fernando Lanhas, artista versátil que deixou obra nos campos da pintura, arquitectura, etnografia, poesia, arqueologia e astronomia: Fernando Lanhas — Os Sete Rostos (1988).

Em 1990 assina um dos raros trabalhos de co-produção entre as estações de televisão oficiais de Portugal e da Espanha, A Maldição de Marialva, um argumento de sua autoria sobre acontecimentos ocorridos na Península Ibérica pouco antes do ano 1000, em pleno domínio árabe.

O Altar dos Holocaustos (1993) é ainda um trabalho televisivo, antecedendo a longa-metragem Chá Forte com Limão acentua a versatilidade da sua obra. Passado no séc. XIX, num casarão de província, a que regressam duas mulheres para visitarem a que ainda lá reside, é a análise de diferentes personalidades, feita de memórias e silêncios. Santo António de Todo o Mundo é um novo documentário de 1996, mais uma vez um estudo sobre um tema religioso.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs