Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Fernando Lopes

Fernando Lopes (1935)

Fernando Lopes faz parte duma geração de realizadores que desponta para o cinema através do movimento cineclubista (foi sócio do Cineclube Imagem) e que adquire os primeiros conhecimentos técnicos graças ao trabalho em televisão (ingressou na Rádio Televisão Portuguesa no ano de inauguração, 1957).

Partiu para Londres em 1959, como bolseiro do Fundo de Cinema Nacional, aí frequentando um curso de realização na London School of Film Technique e vindo a rodar em 1960 as curtas-metragens The Bowler Hat, Interlude e The Lonely Ones. De regresso a Portugal, filma vários documentários, alguns dois quais para televisão, neles revelando uma linguagem moderna, longe do que era habitual nesse tipo de projectos: Marinha Portuguesa (1961), Ano Mundial do Refugiado (1961), Domingos Sequeira (1961), O Voo da Amizade (1961), As Pedras e o Tempo — Évora (1961), A Cidade das Sete Colinas — Marçano Precisa-se (1962), Este Século em que Vivemos (1962), As Palavras e os Fios (1962), 1X2 (1963).

Em 1964 realiza Belarmino, um filme-documento tomando como ponto de partida a figura do pugilista Belarmino Fragoso, um antigo campeão em fase de decadência, que é entrevistado pelo jornalista Baptista Bastos. Num misto de ficção e documentário, a câmara deambula por uma Lisboa que vai desaparecendo (as antigas salas de cinema, os clubes nocturnos), ao som de "jazz" (género musical que pela primeira vez constituía a banda sonora dum filme português).

Depois dum estágio de três meses em Hollywood, em 1965, retoma a realização de trabalhos para televisão e de mais alguns documentários, como Cruzeiro do Sul (1966), sobre a navegação aeronaval portuguesa e as figuras dos pilotos Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Vermelho, Amarelo e Verde (1966), Hoje, Estreia (1967), Tejo — Rota do Progresso (1967) e Aventura Calculada (1970), sobre o Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Em 1970 é nomeado presidente do Centro Português de Cinema, cooperativa de cineastas apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Um ano depois realiza aquele que é considerado um dos melhores filmes de sempre do cinema português e, indiscutivelmente, uma das mais conseguidas adaptações duma obra literária ao grande écran. Uma Abelha na Chuva, com base no romance homónimo de Carlos de Oliveira, não se limita a ser a transposição para a tela, capítulo a capítulo, do original (o que se tentava, em geral, e acabava por ser uma falha das adaptações de textos literários), mas o resultado duma análise profunda do romance de Oliveira, a que Fernando Lopes retirou personagens que seriam menos "cinematográficas" e acrescentou uma representação teatral de "Amor de Perdição", de Camilo Castelo Branco, com cenas que estabelecem um paralelismo com os sentimentos e a conduta da principal personagem feminina. A fotografia a preto e branco de Augusto Cabrita (que já havia assinado a fotografia de Belarmino) é dos trabalhos técnicos mais perfeitos até então realizados, valorizando cenas dum rigor estético invulgar e contribuindo para transmitir o desencanto dum Portugal rural opressivo.

O documentário Nacionalidade: Português (1972), com produção do escritor Nuno Bragança, e a direcção da renascida revista Cinéfilo (1973-1974) são os seus trabalhos de maior vulto antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, cujos desenvolvimentos filmou com outros realizadores, colaborando na autoria colectiva de As Armas e o Povo (1975).

Data ainda de 1975 o seu documentário O Encoberto, dedicado à polémica estátua de D. Sebastião no centro da cidade de Lagos, criada pelo escultor José Cutileiro. Habitat (1975), outro documentário, antecede a sua terceira longa-metragem, Nós Por Cá Todos Bem (1976), em que, partindo do percurso de vida da sua própria mãe, faz contrastar a vida no campo e na cidade e faz preservar experiências de vida ocorridas num contexto político-social distante do da realização do filme.

Sons e Cores de Portugal (1977) e Lisboa (1979), este último para televisão, são outros trabalhos na área do documentarismo no final da década de 70, um período em que se intensifica a sua actividade televisiva ao dirigir entre 1978 e 1980 a programação do segundo canal da Rádio Televisão Portuguesa, a que imprimiu uma identidade própria, distinguindo-o significativamente do primeiro canal.

Findas as funções na RTP 2, Fernando Lopes regressa ao cinema com o documentário Altitude 114 e, em 1984, com a adaptação do romance de Mário Zambujal Crónica dos Bons Malandros. Ainda que menos elogiado pela crítica do que os seus filmes de fundo anteriores, Crónica dos Bons Malandros regista um assinalável êxito junto do público, graças à popularidade do livro (e do seu autor) e ao conjunto de intérpretes, na sua maioria muito conhecidos do teatro e da televisão.

A próxima longa-metragem, Matar Saudades (1987) volta a suscitar algumas reservas por parte da crítica, mas traz aos écrans um tema estranhamente pouco frequente no cinema nacional, ainda que constitua uma constante da vida portuguesa: a emigração. A história do regresso dum emigrante ex-combatente da Guerra Colonial não merece também os favores do público numa época, aliás, de acentuadas dificuldades económicas no campo do cinema. Há um número relativamente escasso de produções nacionais no final da década de 80, embora se intensifique o regime de co-produção, a que Fernando Lopes recorrerá para O Fio do Horizonte (1993). Trata-se da adaptação dum original do escritor italiano Antonio Tabucchi, nome de há muito ligado à cultura portuguesa.

Embora continuando a dedicar-se ao cinema através da realização de documentários, como Se Deus Quiser (1996) (para televisão), Gérard fotógrafo (1997), Lissabon — Wupperthal — Lisboa (1998) e Cinema (2001), uma homenagem ao cinema português e aos que nele trabalham, Fernando Lopes volta a obter o reconhecimento unânime da crítica com a adaptação da obra emblemática de José Cardoso Pires O Delfim, retrato dum marialvismo localizado nos anos 60, mas não completamente erradicado da sociedade portuguesa.

Com experiência também no campo do ensino (na Escola Superior de Cinema), Fernando Lopes é um dos mais prestigiados realizadores portugueses, responsável por alguns dos filmes esteticamente mais inovadores da cinematografia nacional.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs