Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Joaquim Leitão

Joaquim Leitão (1956)

Joaquim Leitão frequentou o Curso de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, que acabou por abandonar para, em 1976, se inscrever no Conservatório Nacional, em cuja Escola Superior de Cinema se licenciaria em Montagem quatro anos depois.

Após trabalhos experimentais em vídeo e na área da curta-metragem, como O Aprendiz de Mago (1980), 3º Mundo (1981) e Tanza-Variedades (1983), realiza o seu primeiro filme de fundo em 1986, Duma Vez por Todas, em que é visível um ritmo e um domínio da narrativa pouco frequentes no cinema português, em geral ainda voltado para o modelo francês, em que as personagens e os seus sentimentos se sobrepõem ao enredo. Sem deixar de ser europeu (e especificamente português pelo conteúdo da suas obras), o cinema de Joaquim Leitão não renega a componente espectáculo, habitualmente mais associada a produções norte-americanas. Há que ter presente que se trata dum realizador que filma já sem o peso da censura, pelo que dispensa a necessidade do recurso a metáforas, que caracteriza obras doutros cineastas que, mesmo depois da Revolução do 25 de Abril e da consequente abolição da censura, não se libertaram de certos simbolismos de difícil decifração para o público em geral.

Cineasta versátil, Joaquim Leitão dirigiu no final da década de 80 "videoclips" para músicos portugueses e trabalhou em televisão (Voltar, para a série "Fados" da Rádio Televisão Portuguesa, em 1989). Inicia os anos 90 com Ao Fim da Noite (1991), uma co-produção internacional, com um elenco de actores de diferentes nacionalidades.

A experiência que pontualmente desenvolve como intérprete em filmes doutros cinestas, ajudá-lo-á a adquirir grande segurança na direcção de actores, conseguindo um reconhecida coesão nos elencos das suas películas, em que, por vezes, surgem nomes consagrados lado a lado com estreantes ou actores em princípio de carreira. Joaquim de Almeida é um dos actores mais presentes nas suas obras, a partir de Uma Vida Normal (1993), um olhar algo satírico sobre a crise dos quarenta anos vivida no masculino.

Nesse mesmo ano realiza Uma Cidade Qualquer, documentário ficcional em suporte vídeo de alta definição no âmbito da secção de cinema do projecto Lisboa 94 — Capital Cultural da Europa.

Os seus dois filmes seguintes constituem dos maiores êxitos comerciais do cinema português e ilustram a mestria tecnico-narrativa de que dera mostras: Adão e Eva (1995), em cujo elenco integra os mais internacionais actores portugueses, Joaquim de Almeida e Maria de Medeiros, desempenhando os papéis de duas figuras mediáticas numa crítica a certos aspectos da televisão mais comercial, e Tentação (1997), ainda com Joaquim de Almeida, no papel dum padre "tentado" pelo mundo da droga a que o conduz a atracção por uma mulher, tiveram ampla promoção televisiva (a estação privada SIC era um dos patrocinadores). Ficou claro que, quando se conjugam factores como um argumento que prenda a atenção do espectador, um elenco apelativo, uma realização escorreita e uma distribuição acertada e bem promovida é possível captar o interesse do público.

Inferno (199) não obteve o mesmo êxito nem de público nem de crítica, que apontou a pouca consistência de algumas personagens, mas é um dos raros filmes portugueses a abordar a questão dos traumas pós-Guerra Colonial, um tema que, tendo em conta a duração e a dimensão do conflito, mereceria maior tratamento a nível da ficção (literária, cinematográfica e televisiva).

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs