Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Manuel Guimarães

Manuel Guimarães (1915-1975)

Após o Curso Geral dos Liceus, matriculou-se na Escola de Belas Artes do Porto em 1931, optando pela área da Pintura. Iniciou a sua actividade profissional em 1936 como decorador teatral, ilustrador e caricaturista. O primeiro contacto mais directo com o cinema prende-se com o seu trabalho de desenhador de cartazes, que assina como Magui. A partir de 1942, porém, envolve-se mais profundamente no meio cinematográfico, exercendo as funções de assistente junto de alguns dos mais conceituados realizadores da época, como Manoel de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Jorge Brum do Canto, Arthur Duarte e Armando de Miranda.

Assina o seu primeiro filme em 1949: o documentário O Desterrado, sobre a vida e a obra do escultor Soares dos Reis, a que foi atribuído o Prémio Paz dos Reis, com que o Secretariado Nacional da Informação (SNI) distinguia as melhores curtas-metragens.

Dois anos depois realizou o seu primeiro filme de fundo, Saltimbancos, no qual, a partir dum argumento do romancista Leão Penedo, se focava a decadência dum pequeno circo ambulante. O resultado final merece elogios de parte da crítica e de alguns intelectuais, que vêem nesta película, claramente influenciada pelo movimento neo-realista, um caminho a seguir pelo cinema português, numa época em que era já visível a crise que caracterizaria a produção dos anos 50. Os nomes mais brilhantes das duas décadas anteriores haviam-se progressivamente afastado da actividade cinematográfica e a censura constituía um entrave a propostas inovadoras. Da acção da censura se viria, aliás, a ressentir parte da obra de Manuel Guimarães. Nazaré (1952), com argumento do escritor neo-realista Alves Redol, visava retratar a vida difícil da comunidade piscatória daquela vila, mas os censores consideraram determinadas cenas demasiado críticas do ponto de vista social e os vários cortes efectuados retiraram alguma força ao filme. Mais grave seria, no entanto, o que se viria a passar com Vidas Sem Rumo (1956), um argumento original do próprio Manuel Guimarães com diálogos de Alves Redol, que, com 45% de cenas cortadas, foi um dos filmes mais censurados da história do cinema português, levando a que o produto final fosse, a nível narrativo, de difícil entendimento.

A fim de suportar os custos de filmes de pouco êxito comercial e de encontrar fundos para prosseguir uma actividade digna no campo do cinema, Manuel Guimarães fez, assumidamente, incursões por caminhos mais convencionais, em documentários como As Corridas Internacionais do Porto (1956), O Porto é Campeão (1956) e XXX Volta a Portugal em Bicicleta (1957) e na pouco feliz adaptação cinematográfica da opereta A Costureirinha da Sé (1958), em que certas cenas constituíam uma clara publicidade a determinadas marcas e produtos.

Documentários como Barcelos, Porto, Capital do Trabalho e Vinhos Bi-seculares, todos de 1961, pareciam ser a única via para a carreira de Manuel Guimarães enquanto cineasta, mas o advento do chamado "cinema novo" viria a dar-lhe um segundo fôlego. António da Cunha Telles, produtor das primeiras películas associadas a esse movimento da cinematografia nacional, reconhecendo o que havia sido inicialmente a luta de Manuel Guimarães por um cinema digno, é produtor executivo e co-produtor respectivamente de Crime de Aldeia Velha (1964), adaptação da peça homónima de Bernardo Santareno, e O trigo e o Joio (1965), que Fernando Namora adaptou a partir do seu próprio romance. Ainda que não tivessem obtido grande êxito junto do público (cada vez mais afastado do cinema português, com excepção de alguns filmes musicais), são obras escorreitas de que ressalta a competência técnica de Guimarães e dos seus colaboradores.

Os anos seguintes serão marcados pela sua actividade de documentarista, enveredando com regularidade pela divulgação da obra de vultos da cultura portuguesa: Artes Gráficas (1967), O Ensino das Belas-Artes (1967), Porto, Escola de Artistas (1967), Tapetes de Viana do Castelo (1967), Tráfego e Estiva, o primeiro filme português em 70mm (1968), António Duarte (1969), Fernando Namora (1969), Resende, sobre a vida e a obra do pintor Júlio Resende, com texto e entrevista conduzida por Vergílio Ferreira (1969), Viagem do TER/Expressos Lisboa-Madrid (1969) e Areia, Mar — Mar, Areia (1970), sobre o escultor Martins Correia.

A comédia de costumes Lotação Esgotada (1972), a partir duma ideia de Artur Semedo (que a protagoniza), passa despercebida, mas reforça a ligação a Vergílio Ferreira ao incluir no final frases do seu romance "Alegria Breve". O grande projecto de Manuel Guimarães é passar ao cinema "Cântico Final", um dos mais conhecidos romances de Ferreira. A abolição da censura, que a Revolução de 25 de Abril traz consigo, iria corresponder aos anseios do cineasta. Acaba, porém, por adoecer gravemente pouco tempo depois, falecendo antes de completar o filme, que será terminado pelo filho, Dórdio Guimarães.

Para muitos Manuel Guimarães foi um dos mais batalhadores e, simultaneamente, um dos mais injustiçados realizadores do cinema português, um cineasta honesto cuja obra acompanhou frequentemente a sua paixão pelas artes plásticas e pela literatura.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs