João Mário Grilo (1958)
É um exemplo de como certas manifestações culturais podem influenciar jovens que a elas assistem. O seu interesse pelo cinema acentuou-se de forma marcante ao assistir desde os quinze anos às sessões do Festival de Cinema da Figueira da Foz.
Em Coimbra, em cuja universidade frequentou o Curso de Economia, dirigiu no biénio 1976-1977 o Centro de Estudos Cinematográficos a par da participação em actividades cineclubistas.
Realiza o seu primeiro filme em 1979, Maria, uma película muito pessoal, fruto duma reflexão sobre figuras da sua própria família. Entretanto, interrompe o Curso de Economia, optando pelo de Sociologia na Universidade Clássica de Lisboa. Não deixa, porém, o cinema, filmando as edições de 1979 e 1980 do Rali internacional da Figueira da Foz para o Clube Automóvel do Centro.
A sua primeira longa-metragem é um dos poucos filmes portugueses a abordar a presença de refugiados em Portugal. A Estrangeira (1982) tem como protagonista o actor espanhol Fernando Rey, figura de relevo na cinematografia de Luis Buñuel, um dos cineastas de eleição de João Mário Grilo, e constituiu um êxito de crítica assinalável.
João Mário Grilo enceta de seguida uma actividade como crítico literário até que regressa aos écrans com O Processo do Rei (1989), onde, com considerável rigor estético, quase pictórico, recorda a figura do rei D. Afonso VI, cujo casamento com Maria Francisca de Sabóia não teria sido consumado.
A década de 90 é não só caracterizada pela realização de longas-metragens de temáticas bastante diferentes, como ainda por uma intensa actividade académica. A O Fim do Mundo (1993), telefilme integrado na série "Quatro Elementos", da Rádio Televisão Portuguesa, segue-se o doutoramento em Ciências da Comunicação com duas teses sobre o cinema norte-americano e a regência de cadeiras de estudos fílmicos na Universidade Nova de Lisboa.
Saramago: Documentos (1994) é uma das suas raras incursões pela área documental e precede Os Olhos da Ásia (1996), sobre a tentativa de cristianização do Japão por parte dos Jesuítas, no séc. XVI.
Os seus trabalhos seguintes são baseados em factos reais e revelam um interesse especial por questões de âmbito criminal. Longe da Vista (1998) e o telefilme 451 (integrado numa série da Rádio Televisão Portuguesa sobre crimes particularmente originais cometidos em Portugal) evidenciam a preocupação de apresentar argumentos que captem a atenção dos espectadores, através duma cuidada técnica narrativa que não descura o aprofundamento do carácter das personagens.
A Falha (2002) é uma reflexão sobre o percurso de vida de parte da geração de 60, responsável pela contestação ao regime então vigente, através nomeadamente do movimento universitário, e revela uma segura direcção de actores, outra das características de relevo da sua obra..