Fernando Garcia (1917)
Fernando Garcia foi crítico de cinema desde 1935, actividade que acumulou com a de assistente de vários filmes produzidos nos anos 30 e 40. Exerceu também as funções de chefe dos serviços de produção da empresa criada por António Lopes Ribeiro na década de 40.
A sua actividade de realizador coincidiu com o período de maior crise do cinema nacional, não podendo dizer-se que os seus filmes hajam contribuído para superar esse período de decadência. O rigor técnico e a dignidade que procurou imprimir às suas obras não foram suficientes para encobrir a falta de inspiração dos argumentos ou a pouca mestria na passagem de obras literárias para o cinema.
Heróis do Mar (1949), a adaptação de "Os Grandes Trabalhadores do Mar" de Jorge Simões, fica-se pela homenagem aos pescadores de bacalhau que, em lugres por vezes sem um mínimo de condições, ganhavam a vida nos mares da Terra Nova e da Gronelândia. Dois anos depois dedicaria um documentário, Deus os Fez, à Junta Central da Casa dos Pescadores.
Um Marido Solteiro (1952) foi mais uma das tentativas levadas a cabo nos anos 50 no sentido de copiar o modelo da comédia das décadas anteriores. No entanto, os autores da "fase de ouro" da comédia portuguesa (mesmo em teatro) tinham já morrido ou haviam-se desinteressado da actividade cinematográfica, cientes de que a censura e as difíceis condições de produção e distribuição nada contribuiriam para a valorização do seu trabalho.
O exemplo talvez mais significativo do vazio de ideias de que se ressentia o cinema português de então é justamente dado por Fernando Garcia ao limitar-se a passar para película uma revista (levada à cena no teatro Avenida), Agora é que são Elas! (1953). Actualmente, tendo o teatro de revista quase desaparecido, é indiscutível que o filme vale como registo dum tipo de teatro popular durante mais dum século. Há, porém, que convir que o espectáculo que Garcia optou por filmar não terá sido dos melhores do género (nem em termos musicais nem de crítica social), ainda que fosse curioso o facto de ser a primeira revista interpretada apenas por mulheres.
Fernando Garcia assinaria a sua última longa-metragem em 1954, ao adaptar ao cinema a obra "O Defunto" de Eça de Queiroz, a que deu o título de O Cerro dos Enforcados. Embora se verifique um certo rigor na recriação da Idade Média portuguesa, é visível a dificuldade do realizador em adaptar ao grande écran, de forma minimamente credível e cativante, o elemento fantástico que perpassa por todo o livro. Trata-se, todavia, dum trabalho digno, num campo por onde o cinema português raramente se aventurou.
No campo do documentarismo são ainda de salientar dois filmes rodados na Ilha da Madeira: Madeira, uma canção (1954) e Fim de Ano na Madeira (1956).
Nos anos 60 Fernando Garcia foi presença assídua da televisão portuguesa na rubrica "7ª Arte", na qual, com os seus vastos conhecimentos, informava os espectadores de aspectos relacionados com os filmes exibidos e o mundo do cinema em geral.