Constantino Esteves (1914-1985)
Após frequentar a Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa enveredou pela actividade cinematográfica, começando, como outros cineastas da sua geração, por exercer as funções de assistente em diversas produções.
A sua primeira longa-metragem é a adaptação duma comédia de Gervásio Lobato, O Comissário da Polícia (1952). Apesar de se tratar duma comédia de costumes, género que, nas duas décadas anteriores, havia dado origem a obras prestigiadas do cinema português, a fita de Constantino Esteves revelava já o declínio por que passava a cinematografia nacional na década de 50: era escasso o esforço no sentido de dar ao produto final uma linguagem e um ritmo que se afastasse da produção teatral e o domínio da vertente técnica era insuficiente, sobretudo numa época em que eram inevitáveis as comparações com películas oriundas dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da França ou da Itália. A presença de actores experientes como António Silva, Manuel Santos Carvalho, Elvira Velez e Vasco Santana conseguia ainda salvar O Comissário da Polícia do fracasso completo.
Durante uma década, Constantino Esteves assina apenas dois documentários, Bodas de Oiro da Natação Portuguesa (1956) e Barragens do Zêzere (1961). Reaparecerá no campo da longa-metragem em 1963, com O Miúdo da Bica, cujo argumento (de que era autor juntamente com o escritor Luís de Sttau Monteiro) consistia fundamentalmente na biografia do principal intérprete, o fadista Fernando Farinha. A opção de conceder agora o protagonismo dos seus filmes a cantores quase totalmente desprovidos de qualidades na área da representação, aliada a enredos pouco inspirados, viria a tornar o seu cinema alvo de frequentes ataques da crítica mais exigente.
Constantino Esteves assumiu e defendeu sempre essa opção por um cinema comercial, frisando mesmo que O Miúdo da Bica havia salvo o produtor, Manuel Queiroz, da falência que o desaire financeiro dum projecto mais intelectual (o filme Pássaro de Asas Cortadas, de Artur Ramos) lhe ia provocando. Filmes como Nove Rapazes e um Cão (1963) e A Última Pega (1964) revelavam um Portugal simples, (honradamente) pobre, em que qualquer desejo de fugir ao "status quo" era sinónimo de falta de carácter. A partir de 1965, decide reforçar a componente musical dos seus filmes ao chamar a primeiro plano figuras da música ligeira popularizadas pela televisão, como António Calvário, Tony de Matos, Madalena Iglésias e Paula Ribas. Rapazes de Táxis (1965), Sarilho de Fraldas (1966), em que o grande actor António Silva surge pela última vez no grande écran, O Amor Desceu em Pára-Quedas (1968), O Diabo era Outro (1969) e Derrapagem (1974) mais não representam do que documentos duma estética musical pouco inspirada que o correr dos anos tornaria ultrapassada.