Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Arthur Duarte

Arthur Duarte (1895-1982)

Influenciado pelo seu irmão António Duarte, actor, decide frequentar o Conservatório Nacional, iniciando-se profissionalmente no campo da representação em 1921 na peça "A Morgadinha de Val-Flor".

Em 1923 experimenta o cinema, dirigindo um filme promocional da Fábrica de Chocolates Suíça, Castelo de Chocolate. Cada vez mais interessado nas potencialidades da arte cinematográfica, ruma a Paris em 1925, encetando uma carreira como actor de cinema, com pequenos papéis em várias produções. Dois anos depois opta por Berlim, assinando contrato com a empresa UFA. Contam-se por cerca de cinco dezenas os seus desempenhos em filmes rodados na Alemanha, na Suíça e na Áustria. Ganha um interesse crescente pela parte técnica e no início dos anos 30 torna-se assistente e director de produção de películas realizadas na França e na Espanha, actividade que prossegue em Portugal a partir de 1934.

A sua estreia como realizador duma longa-metragem dá-se em 1938, ao adaptar ao cinema a obra de Júlio Dinis Os Fidalgos da Casa Mourisca, em que, apesar dum certo convencionalismo formal, é visível um apuro técnico resultante de vários anos de prática em trabalhos doutros cineastas.

Depois duma intervenção como actor em O Pai Tirano (1941), de António Lopes Ribeiro, realiza o documentário Férias à Beira-Mar (1942) e a curta-metragem O Caminho da Vida (1943), sobre o dia-a-dia nem sempre isento de dificuldades dum jovem internado no Instituto de Formação Profissional.

Tornar-se-á um dos mais profícuos realizadores portugueses e um dos nomes mais imediatamente associados ao "período de ouro" da comédia portuguesa, embora a maioria dos seus filmes de fundo acabem por não se integrar propriamente nessa categoria.

É, todavia, no âmbito da comédia que o seu trabalho surge mais conseguido, graças à competência técnica, que imprime um ritmo eficaz aos filmes, e à acertada escolha de argumentistas que, utilizando situações do dia-a-dia, em grande parte associáveis à pequena burguesia lisboeta, criam histórias com um humor que tem resistido ao passar do tempo. O Costa do Castelo (1943), protagonizado por António Silva, constitui um clássico do cinema português, popular ainda hoje em dia. O mesmo se aplicará a A Menina da Rádio (1944), de feição mais musical, em que, numa cena antológica, um aparelho de rádio se transforma num televisor, aparelho ainda desconhecido em Portugal.

Como outros cineastas, dedica parte da sua actividade às chamadas "actualidades", mormente de carácter desportivo, como sucedeu com O XV Portugal-Espanha em Futebol (1945) e O VII Portugal-França (1940). Insere-se no projecto de co-produções coma Espanha que, durante parte da década de 40, corporiza em cinema o Pacto Ibérico estabelecido pelo presidente do governo português, António de Oliveira Salazar, e pelo chefe de estado espanhol, Francisco Franco, em 1939. Desse período constam É Perigoso Debruçar-se e O Hóspede do Quarto 13, ambos de 1946.

Em 1947 regressa à comédia com O Leão da Estrela, transferindo o modelo corrente (um bairro lisboeta como microcosmo social) para a cidade do Porto, assinando um novo clássico do género.

Depois de Fogo! (1949), outra co-produção luso-espanhola, é à comédia que volta, logrando realizar um produto válido numa altura em que o cinema português dá já mostras de declínio, as comédias (sem a carpintaria teatral que tinha ajudado os realizadores) pouco de original traziam e prevalecia o melodrama musical.

É exactamente pelo melodrama que Arthur Duarte vai enveredar, sem êxito de público e para decepção da crítica. Do moralismo de A Garça e a Serpente (1954) ao convencionalismo de O Noivo das Caldas (1956), passando pela tentativa neo-realista de Parabéns, Senhor Vicente (1954), nova co-produção com a Espanha, a filmografia de Arthur Duarte afasta-se cada vez mais do rigor técnico e artístico das suas primeiras obras. Nem o recurso ao musical e à popularidade do hóquei em patins em Dois Dias no Paraíso (1957) ou a um argumento entre o romântico e o policial em Encontro com a Vida (1960) reconciliam o seu trabalho com o fulgor inicial ou a preferência do público, numa fase em que o número de espectadores de cinema português decrescia e os que possuíam maior cultura cinematográfica (fomentada essencialmente nos cineclubes) exigiam maior originalidade.

Após realizar alguns documentários, como Roma Portuguesa (1957), O Metropolitano de Lisboa (1959) e Barqueiros do Douro (1961), parte para o Brasil, onde permanece de 1961 a 1965, merecendo maior destaque o filme Em Legítima Defesa — Encontro com a Morte (1965), proibido pela Censura de ser exibido nos cinemas portugueses.

Regressado a Portugal, não consegue obter os fundos necessários à realização duma longa-metragem, pelo que prossegue a sua actividade no âmbito do documentário, realizando em 1967: Carnes e Indústrias Cárneas, Lacticínios Portugueses, Lãs e Cortumes, Pecuária Nacional — Avicultura e Serviços Médico-Sociais nos Meios Rurais.

Após a Revolução de 25 de Abril o Instituto Português de Cinema, que se esperaria mais vocacionado para o exclusivo apoio a obras e realizadores consentâneos com o período revolucionário em curso, atribui um subsídio a Arthur Duarte para a realização de Recompensa (1977), a actualização duma peça famosa do dramaturgo Ramado Curto. Tratou-se, de certo modo, duma homenagem a um cineasta que, pela sua longevidade profissional, corporizava a memória do próprio cinema português e que se pôde assim despedir da actividade a que se havia dedicado durante mais de cinco décadas com um filme formalmente convencional (o que o distingue da maior parte da produção dos anos 70), mas feito com indubitável profissionalismo.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs