Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : José Fonseca e Costa

José Fonseca e Costa (1933)

José Fonseca e Costa começou por estudar Direito, mas, como sucedeu com outros cineastas da sua geração, acabou por enveredar pela actividade cinematográfica após frequentar o ambiente cineclubista (era sócio do Cine-Clube Imagem).

No início dos anos 60 partiu para Itália onde teve a oportunidade de ser assistente estagiário de Michelangelo Antonioni no filme O Eclipse (1962).

Regressado a Portugal, começa a trabalhar como crítico de cinema (nas revistas Imagem e Seara Nova) e como realizador no âmbito da publicidade e do documentarismo, rodando Era o Vento... E o Mar — Sesimbra (1966), A Metafísica do Chocolate (1967), em que se ouve recitar "A Tabacaria" de Fernando Pessoa, Regresso à Terra do Sol (1967), A Cidade (1968), The Pearl of Atlantic — Madeira (1968), The Columbus Route (1969), Voar (1970) e Golf in Algarve (1972). Antes deste último, porém, estreia-se na longa-metragem, com O Recado (1971), com argumento da sua autoria, repleto de referências ao ambiente fechado (e policial) vivido no Portugal do início dos anos 70. O recurso a frases metafóricas e a um certo simbolismo permitiu que o filme pudesse ser exibido e conseguisse, em parte pela presença da actriz Maria Cabral, algum êxito comercial.

Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 participou no trabalho colectivo As Armas e o Povo (1975), em que vários realizadores apresentavam imagens recolhidas na primeira semana da revolução, entre o dia 25 de Abril de 1974 e o dia 1 de Maio.

A sua segunda longa-metragem, Os Demónios de Alcácer Quibir (1975), insere-se a nível temático no tipo de cinema que prevaleceu após a revolução, ao combinar a repressão ocorrida durante uma greve de trabalhadores rurais no Alentejo com fantasmas do colonialismo.

Para uma série da Rádio Televisão Portuguesa sobre a descolonização realiza o documentário Independência de Angola — Os Acordos de Alvor, o Governo de Transição (1977), continuando a trabalhar em televisão numa série humorística, Ivone — a Faz-Tudo (1979), protagonizada por uma das mais populares actrizes portuguesas, Ivone Silva.

Numa fase de nítido divórcio entre o público e o cinema português, que continuava a revelar-se hermético e pouco acessível, ainda que já livre da censura, Fonseca e Costa aposta num regresso a um modelo narrativo tradicional, embora aliado a situações da actualidade. Kilas, o Mau da Fita (1980), é de certo modo aparentado com o estilo de comédia dos anos 30 e 40 e torna-se um dos maiores êxitos comerciais do cinema português, elogiado também pela generalidade da crítica.

A co-produção luso-moçambicana Música, Moçambique (1981) é um repositório de diversos estilos de música moçambicana, seguindo-se-lhe um trabalho de encomenda: Philirama — As Indústrias Phillips em Portugal (1981).

Em 1982 filma pela primeira vez um argumento que não é da sua autoria. Sem Sombra de Pecado é a adaptação duma novela de David Mourão-Ferreira, "E aos Costumes Disse Nada" e marca o início duma nova fase na carreira na carreira de José Fonseca e Costa, em que adere ao modelo europeu em vigor nos anos 80, que passa pela co-produção e pela internacionalização de elencos e equipas técnicas. Quatro anos depois adapta ao cinema uma das obras mais conhecidas de José Cardoso Pires, A Balada da Praia dos Cães, mantendo a capacidade de fazer filmes capazes de suscitar o apreço da crítica e corresponder ao gosto de grande parte do público.

A Mulher do Próximo (1998), co-produção luso-belga, e Os Cornos de Cronos (1990), co-produção luso-brasileira, passam mais despercebidos em termos de bilheteira, em parte por surgirem numa fase de acentuada dificuldade para o cinema português, com um decréscimo da produção e alguns problemas a nível da distribuição dos filmes nacionais.

O regresso em 1996, com Cinco Dias, Cinco Noites, uma co-produção luso-francesa tendo como base uma obra de Manuel Tiago, pseudónimo literário do mítico líder do Partido Comunista Álvaro Cunhal, é saudado pela crítica como um dos seus melhores filmes, com um equilíbrio a nível técnico e artístico nem sempre encontrado em projectos que visam a recriação de ambientes distantes no espaço e no tempo (neste caso a fronteira de Trás-os-Montes, no final dos anos 40).

José Fonseca e Costa é desde 1999 membro do Conselho Superior do Cinema, Audiovisual e Multimedia.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs