Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : Cinema Português : Realizadores : Jorge Brum do Canto

Jorge Brum do Canto (1910-1994)

Jorge Brum do Canto começou muito jovem a interessar-se por cinema, constando ter escrito a sua primeira crítica aos nove anos de idade. Em 1925, com quinze anos, estreou-se no cinema como actor, desempenhando um pequeno papel no filme O Desconhecido, de Rino Lupo. Entre 1927 e 1929 foi crítico do cinema no jornal Século, começando entretanto a frequentar o curso de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, que não viria a completar.

Data de 1929 a sua primeira obra como realizador, A Dança dos Paroxismos, um inovador exercício fílmico influenciado pelo vanguardismo francês.

Na década de 30 combina a colaboração em várias revistas de cinema (Cinéfilo, Kino, Imagem) com a actividade de documentarista, com filmes como Fabricação de Mangueiras (1932), Abrantes (1933), Uma Tarde em Alcácer (1933), Berlengas (1934), A Dança dos Ulmeiros (1934), A Obra da junta Autónoma das Estradas (1934) e Hora H (1938), este último sobre a Orquestra Aldrabófona, um fenómeno radiofónico de grande popularidade.

1938 marca a sua estreia na longa-metragem com um filme de grande pendor naturalista, rodado na ilha de Porto Santo: A Canção da Terra conquistou a crítica com a sua exemplar montagem e com a força telúrica das suas imagens e conquistou um lugar especial na história do cinema português pela modernidade e pelo rigor da realização.

As expectativas criadas à volta de Jorge Brum do Canto tornar-se-iam talvez demasiado altas e viriam a ser algo defraudadas pelo convencionalismo de alguns trabalhos futuros.

Se João Ratão (1940), adaptação duma opereta famosa, vale por tratar um tema "esquecido" pelo cinema sonoro (a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial) e Lobos da Serra (1942) tem o mérito de abordar outro tema até então "virgem" na ficção fílmica portuguesa (o contrabando junto à fronteira), Fátima, Terra de Fé (1943), sobre a conversão dum académico ao catolicismo, e Um Homem às Direitas (1944), sobre o herdeiro duma família rica que envereda pelo caminho da marginalidade, assumem um carácter moral que a pouca criatividade dos argumentos e da realização não ajudam a fortalecer.

Ladrão, precisa-se! (1946) é uma curiosa incursão no "music-hall", obviamente distante, pela falta de toda uma série de requisitos técnicos e artísticos, do modelo "hollywoodiano" em que se baseia, mas interessante por fugir ao esquema da comédia musical "à portuguesa" e bastante conseguido do ponto de vista da montagem.

Após alguns anos sem filmar, Brum do Canto assina um filme assumidamente colonialista, de que é também um dos intérpretes: Chaimite (1953). Trata-se da reconstituição de Moçambique de fins do séc. XIX no período das campanhas de pacificação levadas a cabo pelos Portugueses para dominarem as tribos vátuas.

Depois de quase uma década de inactividade cinematográfica, assina em 1962 uma adaptação convencional da obra Retalhos da Vida dum Médico, de Fernando Namora. É ainda de forma convencional que passa a filme um conto de David Mourão-Ferreira: Fado Corrido (1964) assinala o regresso ao cinema de Amália Rodrigues, numa interpretação premiada.

Quando se considerava que a sua obra não se afastaria de caminhos ultrapassados, realiza A Cruz de Ferro (1967), sobre um conflito em torno da irrigação de terras de duas aldeias vizinhas de Trás-os Montes, demonstrando grande rigor técnico e excelente direcção de actores (o próprio Brum do Canto faz parte do elenco, o que também se verificara em Chaimite e Fado Corrido).

Na década de 70 dedica-se à interpretação em trabalhos televisivos (teleteatro e séries), revelando qualidades assinaladas pela crítica da especialidade.

O seu último filme, O Crime de Simão Bolandas (1984), baseado numa obra de Domingos Monteiro, estreia num período que parecia de vitalidade para o cinema português (quatro novos filmes em exibição simultânea) e não consegue fugir a comparações que lhe são desfavoráveis, face a um modelo narrativo e a uma estética pouco consentâneos com a realidade cinematográfica dos anos 80.

Autoria: Alcides Murtinheira

Actualizado em 06.02.2010 fvs