Augusto Cabrita (1923-1993)
Quando se aborda a história do cinema é quase sempre dado destaque aos realizadores que, pela originalidade da sua obra, abriram novos caminhos à chamada "sétima arte" e/ou aos actores que, pelo seu carisma, se tornaram rostos familiares e inesquecíveis dos amantes da actividade cinematográfica.
Para que os rostos dessses actores ficassem imortalizados no melhor ângulo e para que a obra desses realizadores se tornasse única foi necessário o empenho de dezenas de técnicos, sem dúvida menos conhecidos mas indispensáveis à indústria e à arte das "imagens em movimento".
O director de fotografia é um dos elementos imprescindíveis à realização e à boa recepção duma obra cinematográfica. Não é exagero dizer-se que a eficácia das imagens dum filme (e, consequentemente, da mensagem que pretenda transmitir) passa, em grande medida, pelo trabalho do director de fotografia. É ele que conduz as imagens à tela; é ele quem decide a cor, a luz, a intensidade com que devem surgir aos olhos dos espectadores os espaços interiores e exteriores; é ele quem desloca a câmara e a combina com os movimentos reais de pessoas e objectos, aproximando-se e afastando-se deles, medindo e verificando distâncias. É a conjugação do movimento dos seus olhos com o dos nossos olhos que dinamiza o espaço. São os olhos que se movem dum lado para o outro, que reduzem o écran a um pedaço, de cima para baixo, dum lado para o outro, para fora do écran e dentro deste, para o espaço real e para o que está na tela, enquadrado, de súbito, pelo ângulo de visão. Os olhos não param de mover-se, apesar de estarem presos ao écran.
Augusto Cabrita foi um dos mais brilhantes fotógrafos e directores de fotografia em Portugal. Nascido no Barreiro a 16 de Março de 1923, começou a interessar-se por fotografia aos 13 anos, sendo, no fundo, um autodidacta cujos conhecimentos foram sendo adquiridos à medida que praticava a sua actividade dos tempos livres. Também a música o atraíu e também nessa área foi autodidacta, aprendendo a tocar de ouvido piano e acórdeão. Como muitos jovens da sua cidade dedicou-se ainda à natação e à vela no prestigiado Clube Naval Barreirense.
Concluídos os estudos secundários pôde combinar as suas paixões pela música e pela fotografia. Acompanhando ao piano, entre outros, as cançonetistas Lina Maria e Maria de Lourdes Resende, muito populares graças à rádio, frequentou meios ligados ao espectáculo, nomeadamente estúdios de gravação, o que lhe permitiu também passar a fotografia cenas de bastidores ou, pura e simplesmente, os rostos de artistas conhecidos.
No fim da década de 40 começa a participar em certames nacionais e internacionais de fotografia, obtendo alguns prémios, inclusivamente na competitiva categoria da fotografia publicitária. Em 1956 abre o seu estúdio de fotografia no Barreiro, que se viria a tornar de certo modo mítico, visto que lá foram feitas as fotografias das capas de discos de nomes marcantes da música portuguesa como Amália Rodrigues, Simone de Oliveira, Carlos Paredes ou Luís Góis.
Inicia, entretanto, a sua colaboração como fotojornalista em jornais e revistas, sendo ainda nessa qualidade correspondente de várias publicações internacionais. O advento da televisão em Portugal, em 1957, capta a sua atenção, mantendo-se durante vários anos como colaborador independente da RTP (Rádio Televisão Portuguesa). Devem-se-lhe, entre muitas outras, algumas das imagens pioneiras do "novo" meio de comunicação social, constando dos arquivos televisivos nacionais as suas reportagens da visita da rainha Isabel II da Grã-Bretanha a Portugal (o primeiro exterior em directo da televisão portuguesa, nesse mesmo ano de 1957) e do drama do terramoto de Agadir, em Marrocos, em 1960.
Do encontro de Augusto Cabrita com a televisão portuguesa ficaram na memória de público e crítica, muito em especial, uma notável série de pequenos documentários para a rubrica (publicitária) Vamos jogar no Totobola e a combinação entre música e imagem que foi o programa semanal Melomania, do musicólogo Luís de Freitas Branco, que considerou só ser possível trabalhar de forma tão conseguida por ter tido a seu lado um cineasta que também era melómano.
Se é verdade que nem tudo o que surge no pequeno écran fica para a posterioridade, apesar de o videotape ter vindo a ser cada vez mais usado na década de 60, o cinema acabará por ser então, a par da fotografia, o meio por excelência da preservação da arte de Augusto Cabrita.
A sua actividade cinematográfica começa na fase de "explosão" do chamado cinema novo. Em 1964, Fernando Lopes convida-o para director de fotografia de Belarmino, filme emblemático desse movimento, um documentário a vários títulos inovador (é, por exemplo, a primeira vez que o jazz integra a banda sonora dum filme português) em que a principal figura é um pugilista conhecido da boémia nocturna de Lisboa, Belarmino Fragoso. No ano seguinte, Augusto Cabrita assina a fotografia de As Ilhas Encantadas, uma longa-metragem de Carlos Villardebó, protagonizada por Amália Rodrigues e que a própria artista consideraria ser de longe a sua melhor actuação em cinema. Cabrita faz, aliás, de Amália Rodrigues algumas das suas melhores fotografias, tendo também filmado a digressão da cantora por Itália, em 1972.
De Augusto Cabrita-realizador de cinema ficaram vários documentários, o que, pelo facto de não serem filmes fundo, de modo algum lhes retira valor, já que em todos eles há uma profundidade que os torna momentos especiais da cinematografia portuguesa. O documentário é um género artístico que nos "transporta" da sala do cinema para o mundo, mostrando-nos um percurso cujo ponto de partida poderia ser comparado à ponta dum novelo que os nossos olhos seguram e percorrem, à medida que se vai desenrolando. Nesta pequena "grande viagem" somos guiados por essa linha do olhar, o fio que os nossos olhos seguem, a luz do caminho que temos de percorrer parando para espraiar os olhos na paisagem, contemplá-la, projectar-nos em pensamento no objecto da nossa contemplação, profundamente, deixando-nos absorver pelo seu interior.
O documentário permite-nos conhecer e compreender a humanidade e tudo aquilo que nos rodeia. É isto que faz do cinema em geral e do documentário em particular uma verdadeira forma de arte.
Um dos mais notáveis documentários assinados por Augusto Cabrita foi História de comboios (1978), que nos conta a primeira viagem de comboio que duas crianças vão fazer, seguindo o mesmo percurso que o escritor dinamarquês Hans-Christian Andersen havia feito em 1866, quando veio a Portugal para visitar a família O'Neill. O filme começa com uma apresentação da história dos comboios em Portugal, em que se faz, por exemplo, referência ao "comboio real" adquirido em 1862, na época do rei D. Luís, através duma firma inglesa com sede em Manchester.
O espectador é confrontado com pessoas nas suas actividades quotidianas, passageiros, jovens e idosos, trabalhadores da linha férrea, o velho maquinista sendo entrevistado pelo próprio filho, a quem elucida das suas várias funções nos Caminhos de Ferro, de limpador de máquinas a fogueiro, maquinista, vigilante e chefe de depósito. A música tradicional portuguesa que se vai ouvindo a par de versos declamados ilustram as imagens de modo a fazer aumentar a receptividade emocional junto do espectador e a legitimar o espaço. Cada imagem deste tocante documentário é uma nota musical; é um som onde tudo se explica; é o olhar estarrecido das crianças, que, tal como nós, pela primeira vez observam aquele mundo; é o olhar de Andersen, que nos acompanha e, pela voz do narrador, nos fala das suas emoções perante lugares e objectos que, passados 112 anos, se mostram tão diferentes.
Em toda a sua obra Augusto Cabrita humanizou "telas", nelas reflectindo sentimentos, emoções, o pulsar quotidiano da cidade, do mundo... Nada melhor do que nas suas próprias palavras para definir a simbiose perfeita entre técnica e sentimento: "O prólogo da minha volta de todos os dias é exercitar os primeiros golpes de vista. (...) O Sol é o melhor projector que há: nada supera a luz natural."
Augusto Cabrita faleceu a 1 de Fevereiro de 1993. Cinco anos depois, por decisão do Ministério da Educação, o seu nome foi dado a uma escola secundária do Barreiro, a cidade a que sempre regressou (e donde, de certo modo, nunca partiu) e onde ainda se mantém o seu estúdio de fotografia, agora dirigido pelo seu filho.
Autoria: Clara Delca Soares