Instituto Camões CENTRO DE LÍNGUA PORTUGUESA / INSTITUTO CAMÕES

na Universidade de Hamburgo

Universität Hamburg

Centro de Língua Portuguesa em Hamburgo : Núcleos Temáticos : 25 de Abril

Versão Portuguesa

25 de Abril – 30 anos, 30 factos

Deutsche Version
Em 2004 celebram-se os 30 anos do 25 de Abril, o movimento militar que em 1974 restituiu a democracia a Portugal, ocupando um lugar único na história contemporânea do país.

Entre o relato factual e a curiosidade, aqui fica o registo de 30 factos relacionados com a chamada "Revolução dos Cravos":

  1. A 22 de Fevereiro de 1974 foi publicado o livro Portugal e o Futuro do general António de Spínola (1910-1996), que para muitos foi o prenúncio claro de que algo estaria para mudar na sociedade portuguesa. Ex-responsável pela actuação das tropas portuguesas na Guiné-Bissau, Spínola assumia publicamente que a solução para a guerra colonial só poderia ser política, através dum diálogo com os movimentos independentistas, e não militar.
     
  2. O filme Brandos Costumes, realizado por Seixas Santos e rodado entre 1972 e Fevereiro de 1974, só estrearia após a Revolução. Curiosamente, o filme, que estabelece uma relação entre os Portugueses e o Estado Novo (o regime autoritário anterior ao 25 de Abril) e que seguramente não teria tido hipótese de ser exibido em público se a revolução não tivesse ocorrido, termina com uma cena premonitória: os militares derrubam o regime.
     
  3. O movimento revolucionário poderia, na verdade, ter ocorrido cerca de um mês antes: às 4 horas da manhã do dia 16 de Março uma coluna do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Raínha, a norte de Lisboa, passou os portões do aquartelamento e dirigiu-se à capital, com a intenção de depor o governo. O golpe não estava, porém, devidamente planeado e a cerca de três quilómetros de Lisboa os militares envolvidos aperceberam-se de que estavam isolados e voltaram para trás. Duzentos oficiais, sargentos e praças viriam a ser detidos na sequência da operação fracassada.
     
  4. A 18 de Março o jornal República, que, lutando contra as dificuldades causadas pela Comissão de Censura, esteve sempre ligado à oposição ao regime, deu a notícia do golpe falhado na secção de desporto, sob o título "Quem travará os leões?" Numa aparente alusão a um jogo de futebol disputado no estádio José Alvalade, em Lisboa, entre a equipa local, o Sporting Clube de Portugal, cujo símbolo é um leão, e o Futebol Clube do Porto, podia ler-se no artigo: "Os muitos nortenhos que no fim-de-semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos com a derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado da sua estratégia, contando ainda com uma assistência fiel), fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, 'perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra'".
     
  5. Foi o capitão de fragata Almada Contreiras, hoje radicado em Moçambique, quem teve a ideia de se usar a canção Grândola, Vila Morena, da autoria de José Afonso (1929-1987) como senha radiofónica para o início das operações no dia 25 de Abril. Tinha-se primeiro pensado numa outra composição de José Afonso, eventualmente mais revolucionária, Venham Mais Cinco, mas Carlos Albino, jornalista do República e responsável pelo programa de rádio Limite, da Rádio Renascença, informou de que tal não seria possível, porque a canção estava proibida pela censura interna dessa estação de rádio. Almeida Contreiras sugeriu então que se passasse Grândola, Vila Morena, cujo texto salientava os valores da igualdade e da fraternidade. A proposta foi aceite e às 0h20 do dia 25 de Abril Grândola, Vila Morena ouviu-se no programa Limite, uma produção independente diariamente apresentada na emissora católica Rádio Renascença.
     
  6. José Afonso escreveu a canção Grândola, Vila Morena em 1964, quando actuou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Ao travar conhecimento com alguns membros dessa agremiação, apercebeu-se de que era comum que, por exemplo, um dos habitantes da pequena vila de Grândola, no Alentejo, adquirisse um livro e depois de lido o pusesse à disposição de outros, para que também o lessem; daí o sentimento da solidariedade perpassar por todo o texto da canção.
     
  7. Ainda em 1964, Grândola, Vila Morena, uma canção sobre uma vila alentejana, fez parte da banda sonora dum pequeno documentário (16 minutos) da autoria de Manoel de Oliveira rodado numa pequena aldeia de Trás-os-Montes, situada entre Bragança e Mirandela: Villa Verdinho – Uma Aldeia Transmontana.
     
  8. A primeira senha radiofónica foi, porém, tocada ainda no dia 24 de Abril, às 22h55m, na estação Alfabeta dos Emissores Associados de Lisboa. Tratava-se duma composição romântica muito em voga na época (o que convinha para não levantar quaisquer suspeitas) que, semanas antes, tinha representado Portugal no Festival Eurovisão da Canção na Inglaterra. O último lugar obtido no concurso (nesse ano vencido pelo posteriormente famosíssimo grupo ABBA) não parecia augurar grande futuro a E Depois do Adeus, com letra de José Niza, música de José Calvário e interpretação de Paulo de Carvalho. A História torná-la-ia, porém, inesquecível.
     
  9. Internacionalmente o movimento ficou conhecido como Revolução dos Cravos, pelo facto de terem sido muitas as imagens divulgadas com soldados empunhando armas de cujos canos saíam cravos. Não se tratou de uma encenação, mas de um acaso. No dia 25 de Abril um restaurante de Lisboa comemoraria um aniversário e o proprietário teve a ideia de adquirir cravos para decorar o salão de refeições e oferecer às senhoras que lá fossem. Evidentemente que a revolução iria impedir que o restaurante abrisse (o comércio foi aconselhado a manter-se encerrado), pelo que uma das funcionárias voltava para casa com uma braçada de cravos. Um dos jovens soldados pediu-lhe um cigarro, mas a senhora disse-lhe que não fumava: "Só tenho estes cravos. Quer um?" O soldado aceitou-o e colocou-o espontaneamente no cano da espingarda. Outros seguiram-lhe o exemplo. Algumas floristas decidiram, entretanto, oferecer aos soldados os cravos que tinham para vender e assim nasceria um dos símbolos mais persistentes do 25 de Abril.
     
  10. Os primeiros presos a serem libertados foram 11 militares que se encontravam detidos no Forte da Trafaria em consequência do falhado golpe de 16 de Março. A sua libertação ocorreu ainda no dia 25 de Abril, às 15h00, até antes da rendição do chefe do governo, Prof. Marcello Caetano (1910-1980).
     
  11. Ficou a ideia de que se tratou duma revolução sem sangue derramado. Infelizmente o dia 25 de Abril não foi totalmente isento de violência. A polícia política – que na época se denominava DGS (Direcção-Geral de Segurança), mas que era ainda conhecida pela designação anterior a 1968, no tempo do Presidente do Conselho António de Oliveira Salazar (1889-1970): PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) – foi a entidade do regime deposto que mais tardou a render-se e às 20h30 foram disparados tiros da sua sede, matando 4 manifestantes e ferindo 45.
     
  12. Os primeiros presos políticos civis a serem libertados estavam encarcerados nos fortes de Peniche e de Caxias. 128 detidos readquiriram a liberdade a partir das 13h00 do dia 26 de Abril, ao som de Grândola, Vila Morena, entoada por familiares e amigos que os aguardavam à porta das prisões.
     
  13. O programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) ficou conhecido como o programa dos 3 Ds: democratizar, descolonizar e desenvolver.
     
  14. O primeiro governo estrangeiro a tomar posição quanto ao golpe de estado em Portugal foi o da República Federal Alemã, cujo chanceler, Willy Brandt, considerou positivas as mudanças anunciadas pelo Movimento das Forças Armadas.
     
  15. Uma das mais significativas consequências do 25 de Abril foi a legalização dos partidos políticos. O mais antigo partido português era o Partido Comunista Português (PCP), fundado a 6 de Março de 1921, na sede da associação dos Empregados de Escritório, em Lisboa. Ao contrário da maior parte dos seus congéneres europeus, o Partido Comunista Português não se formou a partir dum partido socialista, mas antes do movimento sindicalista revolucionário. De 1926 até 1974 o partido sobrevivera na clandestinidade.
     
  16. A transformação da Acção Socialista Portuguesa, criada em 1964, em Partido Socialista Português ocorreu a 10 de Abril de 1973, na pequena cidade alemã de Bad Münstereifel.
     
  17. O Partido Socialista Português encurtou a sua designação para Partido Socialista (PS) pouco depois do 25 de Abril, a fim de que a sigla inicial (PSP) não se confundisse com a da Polícia de Segurança Pública.
     
  18. O primeiro partido político a anunciar a sua formação após o 25 de Abril (a 3 de Maio de 1974) foi o Partido Trabalhista Democrático Português (PTDC), que acabou por nunca se legalizar. Dois dias depois anunciava-se a criação do Partido Cristão Social-Democrata (PCSD), que também nunca se legalizou. Diferente e mais bem-sucedido destino teve o PPD (Partido Popular Democrático), fundado a 6 de Maio por três ex-elementos da chamada ala liberal da Assembleia Nacional, o parlamento de antes de 25 de Abril: Francisco Sá Carneiro (1934-1980), Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota.
     
  19. A designação Partido Popular Democrático foi da autoria do escritor Ruben A. (1920-1975), de seu nome completo Ruben Andresen Leitão. Sá Carneiro pretendia que a designação fizesse uma ligação à social-democracia, ideologia que dominava o programa do partido. A anunciada criação, um dia antes, do citado (e nunca legalizado) Partido Cristão Social-Democrata obrigou a que se procurasse outro nome para o partido. A sugestão de Ruben A. foi imediatamente aceite. Anos depois o PPD passaria a chamar-se Partido Social Democrata (PSD), já sem quaisquer problemas de confusão com as designações doutras formações políticas.
     
  20. A primeira grande manifestação ocorrida depois de 25 de Abril teve lugar a 1 de Maio. O Dia do Trabalhador não era celebrado na época do antigo regime e daí que no futuro se viesse a referir a essa primeira comemoração em liberdade como o primeiro 1º de Maio. Foram múltiplas as manifestações em todo o país nessa data, mas a de Lisboa, com mais de 500 000 manifestantes, ficou na memória colectiva dos Portugueses.
     
  21. A primeira manifestação reivindicativa verificar-se-ia a 4 de Maio, quando militantes do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), organização maoista criada clandestinamente em 1970 e que gozava de considerável apoio junto dos estudantes universitários, incitou ao boicote ao embarque de soldados para as colónias. A Junta de Salvação Nacional, que geria os assuntos nacionais até à formação dum governo, era a favor da manutenção de forças armadas portuguesas nos territórios ultramarinos até à conclusão de negociações com os movimentos independentistas, pelo que haveria soldados a regressar das suas missões e outros a partir.
     
  22. Nem todas as reivindicações tinham um carácter eminentemente político. A 20 de Maio foi criado o Movimento Pró-Divórcio, que lutava pela revisão da Concordata assinada pelo governo português e pela Santa Sé em 1940, que impedia que casais que tivessem contraído matrimónio na Igreja Católica pudessem divorciar-se. A alteração viria a ter lugar no ano seguinte.
     
  23. O primeiro governo formado após o 25 de Abril tomou posse a 16 de Maio, um dia depois de o general António de Spínola ter assumido a presidência da república, e dele constavam os líderes do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal, do Partido Socialista, Mário Soares, e do Partido Popular Democrático, Franscisco Sá Carneiro. Para primeiro-ministro foi indigitado o advogado Adelino da Palma Carlos (1905-1992), oposicionista ao regime anterior e sem filiação partidária.
     
  24. O primeiro salário mínimo nacional foi decretado a 26 de Maio, pelo 1º Governo Provisório: 3 300$00 (cerca de 16,5 euros).
     
  25. A primeira colónia a ver reconhecida a sua independência foi a Guiné-Bissau, a 9 de Setembro. Seguiram-se-lhe Moçambique (no dia 25 de Junho de 1975), Cabo Verde (a 5 de Julho de 1975), São Tomé e Príncipe (uma semana depois) e Angola (no dia 11 de Novembro de 1075).
     
  26. A Guiné-Bissau já havia declarado unilateralmente a sua independência a 25 de Setembro de 1973. Isolado internacionalmente, o Portugal de antes de Abril de 1974 viu 47 países com representação na ONU (Organização das Nações Unidas) reconhecerem a independência da colónia portuguesa.
     
  27. Timor-Leste não pôde beneficiar duma situação idêntica à das outras ex-colónias, pois foi anexado pela Indonésia a 7 de Dezembro de 1975. Após anos de luta pela independência, o território só viria a celebrar a sua independência a 20 de Maio de 2002.
     
  28. Pelo seu significado na História de Portugal a data de 25 de Abril foi de imediato declarada feriado nacional. Nos dois anos após a Revolução foi escolhida para a realização de eleições, os primeiros escrutínios democráticos. A Assembleia Constituinte (cujos membros teriam a tarefa de discutir e redigir a nova Lei Fundamental) foi votada a 25 de Abril de 1975 e a primeira Assembleia da República (designação constitucional para o parlamento) a 25 de Abril de 1976. Em ambos os actos a participação dos cidadãos eleitores foi bastante elevada.
     
  29. A nova Constituição foi aprovada pela Assembleia Constituinte a 2 de Abril de 1976. Devido a questões conjecturais, como a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (hoje designada de União Europeia) e tratados e acordos dela decorrentes, a Constituição tem sofrido algumas alterações mas naturalmente mantido o teor democrático da versão original.
     
  30. O 25 de Abril de 1974 trouxe a liberdade ao povo português. O próprio nome do mês, acompanhado da preposição que na língua portuguesa liga o dia ao mês e o mês ao ano, parecia preconizá-lo ao permitir o anagrama:

    25 DE ABRIL DE 1974

    D E A B R I L D E
    L I B E R D A D E

    LIBERDADE

Actualizado em 06.02.2010 fvs